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sábado, 9 de janeiro de 2010

Como escrevo?

Isso é uma pergunta frequente aos escritores. No meu caso, que só posso dedicar à literatura os tempos livres, mas não menos importantes, respondo: onde? escrevo em qualquer lugar; quando? em qualquer horário, basta estar respirando; de que forma? me conectando, não à internet, mas a um outro mundo, de palavras, sensações.

Se há algo que aperfeiçoei com o tempo foi o poder de me desligar do mundo, onde estiver. Há momentos em que minha mente entra na sintonia de um plano paralelo, em que só eu existo, eu e meus pensamentos. Então, me acostumei a deixar que isso acontecesse em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa. Por isso, é comum eu parar algo e correr ao caderninho inseparável e ali rabiscar algumas linhas de ideias.

Essas ideias nem sempre frutificam, mas estão lá, para que eu saiba que posso recorrer a elas. E quando assim eu faço e algumas delas me pescam numa releitura, basta eu transformá-las, usando minhas canetas e papéis. Ah, sim, papel, pois apesar da formação técnica, de trabalhar com computador o dia todo, não suporto escrever nem ler diretamente no computador. Preciso do papel, deliciosamente escolhido na minha fábrica de “chocolate” que são as papelarias. Ver a letra se amoldar à folha e ir correndo ao ritmo de minha história.


Ainda chegará o dia em que poderei reservar horas do meu dia para escrever. Mas talvez eu sinta falta desse tempo corrido, em que nos desafiamos a criar, mesmo contra as não-facilidades a nossa volta.

Parece que os sentimentos transitam no Cosmos. Comecei a preparar esse post ontem e, à noite, li uma crônica lindíssima da Tatiana Salem Levy sobre escrever caminhando, no site Vida Breve. Deem uma passada por lá e leiam que vale a pena.


***

Leio vários livros ao mesmo tempo. Antologias, então, levam meses, pois vou consumindo aos poucos, graças a independência de seus textos. Uma dessas é o livro “Como escrevo?”, uma coletânea de depoimentos de vários escritores, brasileiros ou não. Foi organizada por José Domingos de Brito e publicada pela Editora Novera. Tem a apresentação de Moacyr Scliar e a introdução de Ignácio de Loyola Brandão. A obra é o volume 2 da coleção “Mistérios da criação literária”, que tem ainda: “Por que escrevo?” (volume 1) e “Relações da literatura com o jornalismo” (volume 3), “Relações da literatura com o cinema” (volume 4) e “Preferências políticas dos escritores” (volume 5).


Então, para dividir com vocês o gostinho doce que estou tendo com essa leitura, alguns trechos:


“Em geral componho mentalmente a história antes de começar a escrever, por gosto de inventar e também por prudência, para livrar-me da ansiedade de saber se poderei ou não resolvê-la de modo aceitável. A outra parte do meu modestíssimo método consiste em escrever diariamente. Italo Svevo tinha razão: ‘Não há melhor maneira de escrever com seriedade do que rabiscar um pouco todos os dias’.” (Adolfo Bioy Casares)


“Apesar de escrever há quase 70 anos, começar sempre me dá trabalho. Não é o terror da página em branco, que só existe para que não sabe o que vai escrever. Eu sei. Não sei é como! As primeiras frases são mais rudes. Cometo erros, rejeito o que escrevi, volto ao ponto de partida. Tenho alguns cadernos de 40 páginas que contêm os primeiros parágrafos de um conto. Escrevo e volto a escrever, e volto a escrever, e volto a escrever e quando chego ao final do caderno ainda não está bem. A primeira página é sempre a melhor de todas, porque foi corrigida muitas vezes.” (Adolfo Bioy Casares)


“Começo no início, continuo até o fim, então paro... A princípio planejo um pouco – uma lista de nomes, sinopse rudimentar dos capítulos etc. Mas não ouso planejar demais; tantas coisas são produzidas pelo simples ato de escrever... Não faço rascunhos. Escrevo a página número um muitas, muitas vezes, e passo para a página dois. Empilho folha após folha, cada uma em seu estado definitivo e, finalmente, tenho um romance que – em minha opinião – não precisa de revisão.” (Anthony Burgess)


“Não há uma única maneira – existe tanta tolice dita a esse respeito. Você é quem você é, não Fitzgerald ou Thomas Wolfe. Escreve-se sentado e escrevendo. Não há uma ocasião ou lugar específicos; você tem que se adequar a si mesmo, à sua natureza. O jeito como uma pessoa trabalha, supondo-se que seja disciplinada, não importa. Se ela não é disciplinada, não há mágica que possa ajudar. O truque é arrumar tempo – não apenas alguns minutos – para produzir ficção. (...) Todo mundo acaba por aprender qual é a sua melhor maneira.” (Bernard Malamud)


“Não tem regra nenhuma. Cada livro surge de modo diferente. (...) Escrevo no máximo duas horas por dia – e rápido. (...) Não gosto de mistificar o trabalho do escritor. Eu trabalho e, se toca o telefone, atendo. Não preciso me isolar, não há grilos. Posso acordar no meio da noite para escrever, não há horários rígidos.” (Bernardo Carvalho)


***

Um pouco sobre os escritores citados:


Adolfo Bioy Casares nasceu na Argentina, em 1914, e faleceu em 1999. Reconhecido como um dos maiores escritores latino-americanos, sua obra é considerada uma das mais imaginativas do realismo fantástico. Seu romance mais conhecido: A invenção de Morel (1940). Seu último livro é Conversações com Borges (1999).

Anthony Burgess nasceu na Inglaterra, em 1917, e faleceu em 1993. Romancista, jornalista, ensaísta e músico nas horas vagas. Seu livro mais conhecido no Brasil é Laranja mecânica (1962).

Bernard Malamud nasceu em Nova Iorque (EUA), em 1914, e faleceu em 1986. Professor e romancista, considerado um dos principais escritores judeu-americanos surgidos após a Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro livro, The natural, foi lançado em 1952 e posteriormente filmado, com Roberto Redford no papel principal. O romance seguinte, The assistant, recebeu o prêmio Rosenthal, do National Institute of Arts and Letters. Em 1966, publicou The fixer, que lhe valeu duas importantes premiações: Pulitzer e National Book Award e, também, resultou num filme de sucesso: O homem de Kiev.

Bernardo Carvalho nasceu em 1960, no Rio de Janeiro, e radicou-se em São Paulo, onde se tornou um jornalista conhecido. Romancista e jornalista, foi editor do Folhetim e correspondente em Nova York e Londres, da Folha de São Paulo. Sua narrativa é composta de fatos reais e históricos misturados com ficção, que sustentam e dão veracidade aos enredos. Recebeu vários prêmios.





sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O que tenho lido...

Nossa, há quanto tempo não falo dos livros que tenho lido, do que tenho escrito, transcrito aqui frases sobre a técnica...

Hoje li um conto do livro A liberdade é amarela e conversível do André Giusti (aliás, um livro de contos muito bom. Recomendo!) que fala sobre o vazio. Um vazio imenso que nos toma meio a felicidade, que transforma a felicidade do que conquistamos em algo menor do que realmente é. E sabe que estava me batendo um vazio sobre o Canastra. Uma sensação de que ele já não era mais o mesmo. Então, pensei que é bom comentar, citar as notícias literárias, mas se tem algo que me dá prazer é ir direto ao ponto, ou seja, falar dos livros, citar o que mais me tocou, divulgar meus escritos.

E para espantar de vez esse vazio, vamos voltar a conversar sobre o que de bom tem passado pelas minhas mãos.

Sobre a coleção Viver & Escrever da Edla Van Steen eu já havia falado aqui duas vezes. E com minha falação (como diz minha pequena), havia citado também alguns trechos. Mas são tantos depoimentos interessantes, que só lendo o livro todo.

Outro livro muito bom que terminei de ler há 10 dias se chama Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil, da Anna Claudia Ramos. Mas alguns devem pensar assim: "mas não pretendo escrever literatura infantojuvenil". E eu respondo: "Não faz diferença, pois Anna fala e muito da literatura, de sua técnica, de sua importância. E literatura é literatura, não importa o gênero".

Sobre os livros, eu indico Mundos de Eufrásia de Claudia Lage. Ainda não terminei, mas até agora foram três quartos de uma história forte contada com linhas inteligentes, de técnica refinada, de palavras exatas, de jogos de palavras que são uma aula à parte. Recomendo!

Voltando um pouquinho mais no tempo (já que desde junho eu não falo sobre essas leituras), terminei aquele que foi o livro de estreia de minha querida Livia Garcia Roza -- Quarto de menina. Livia o lançou em 1995 e o relançou no Salão do Livro deste ano. Falta muito pouco para eu dizer que já passei por toda a sua prosa. E Quarto de menina prova que tudo de maravilhoso que ela criou depois nasceu com seu livro de estreia. É classificado como livro infantil, mas sendo acima de tudo literatura, recomendo a qualquer idade.

Já passei por vários romances e coletânea de contos de Lygia Fagundes Telles, mas ainda não havia lido Antes do baile verde. Aproveitei o relançamento pela Companhia das Letras para saldar meu débito. E fiquei feliz em fazê-lo. O livro é um dos melhores de Lygia. Alguns contos eu já conhecia, mas é sempre bom revê-los, revisitá-los com novas experiências, novas sensações. Afinal somos leitores diferentes a cada vez que entramos em um livro.

Li também nos últimos meses a coletânea de contos A cabeça, de Luiz Vilela. Se tem algo que fui tratando com carinho nesses últimos anos em meus textos são os diálogos. O próprio Paulo Bentancur disse sobre meu livro de contos: "(...) é sobretudo nos diálogos – essa praga na literatura brasileira, uma vez que diálogos são tratados pelo escritor nacional de forma um tanto forçadamente seca ou falsamente retórica –, repito, é nos diálogos que Ana Cristina Melo mostra que é incapaz de trair suas personagens e o universo de que elas dão notícia.". Mas não é sobre mim ou meus diálogos que quero frisar, mas sobre os diálogos não menos que perfeitos que permeiam todo o livro de contos de Luiz Vilela.

Outro título é Vésperas de Adriana Lunardi. Esse livro não é um lançamento recente, mas estava na minha fila do "a comprar" há muito tempo. E depois de comprado, passou para a fila do "a ler". E como me arrependi de não tê-lo lido antes. São contos que transcendem a biografia das escritoras e seus últimos momentos. Muito bom!

Sobre Outra vida de Rodrigo Lacerda, nem preciso falar, até porque já publiquei aqui uma resenha sobre o mesmo. Mas não custa lembrar de que é um romance maravilhoso.

Na mesma linha de lançamentos recentes, vale e muito uma passagem pelo Hotel Novo Mundo da Ivana Arruda Leite. Outra preciosidade. Ivana tem um humor inteligente e a simplicidade que de nada tem de simples na criação, mas o esforço e a minúcia de quem muito se esforça para atingir esta segurança.

Ainda com Ivana Arruda Leite, aproveitei e fui na marola de sua prosa, lendo o livro de contos Ao homem que não me quis. Um livro muito bom, que fecha com o conto que dá título ao livro. Conto este simplesmente maravilhoso.

E falando em estreias tem o romance O contorno do sol de Natália Nami. Pauta-se em dois enigmas e uma grande habilidade da autora para narrar entre os claros e as sombras da história.

E para não me acusarem de só ler os daqui, cito um estrangeiro. Não é porque goste menos, mas realmente tivemos tão bons lançamentos nos últimos meses, que foi impossível ficar longe do que de melhor é fabricado "dentro da nossa casa". Assim, li também, O animal agonizante de Philip Roth. Não é preciso que se fale de Roth. Seus livros são o bastante. Mas esse livro nos prende e nos derruba, mantendo o estilo irônico e incisivo do autor.

Bem, por hoje é só.

Assim, para atiçar mais ainda a curiosidade de vocês, nos próximos posts (incluindo esse) vou deixar aqui algumas sementinhas dessas leituras. Trechos que me tocaram, que marquei com a minha tradicional carinha de "Adorei!". :)

Começo com o livro da Anna Claudia Ramos:

* Entrevista de Anna Claudia Ramos com Ana Maria Machado

"Em um ciclo de palestras a respeito de sua obra, alguém lhe perguntou sobre o que ela considerava um bom livro infantil, Ana Maria (MACHADO, 2002) respondeu, apesar de antes ressaltar que essa era uma definição difícil, muito ampla, citando o autor inglês C. S. Lewis: 'Um bom livro infantil é aquele que a gente lê com deleite aos 10 anos e relê com igual prazer aos 50 anos'".

"Anna Claudia - Criar um mundo pra aquela história. O leitor não precisa saber de um monte de coisas que o escritor pensou ao construir uma personagem, por exemplo, mas o que o escritor precisa saber.

Ana Maria - O Hemingway dizia uma coisa perfeita. Ele dizia que o livro deve valer pelo muito que nele não entrou. Eu acho, por exemplo, que um dos segredos da grande qualidade da literatura infantil é que tivemos um grupo de autores muito leitores e que, então, eles tinham muito para não entrar no livro."

* Capítulo: Como e por que criamos?

"(...) é pela linguagem que o escritor realiza seu trabalho, que este só é possível pelo trabalho estético, o que distingue a criança que brinca do escritor criativo. Mas é preciso deixar claro que Freud faz uma distinção entre o escritor criativo (que cria seu próprio material) e o escritor que utiliza temas preexistentes (que reformula um material preexistente e conhecido, que geralmente procede dos mitos e lendas)."

"Quando digo que alguém pode escrever só para agradar a um tipo de mercado, essa pessoa tem um caminho a seguir bem diferente de quem quer ter estilo próprio e escrever sem se preocupar em passar valores ou conceitos preestabelecidos. Esse tipo de texto no qual o escritor se permite escrever sem ficar preso a passar valores explícitos se propõe a ser literatura. São textos onde as personagens podem ser paradoxais e os mundos da ficção são bem estruturados e definidos, em detrimento de textos em que existem personagens pré-fabricadas e mundos falsos, criados apenas para agradar a um tipo de demanda no mercado."

"Aonde se quer chegar com a história? Há que se preocupar com o foco narrativo, com a estrutura da narrativa, a técnica, a pontuação, o ritmo do texto, a idéia e o aproveitamento da idéia, com a construção das personagens. (...) Em se falando de construção narrativa, vale dizer que, para se criar uma história e achar seu tom, seu ritmo, seu foco, seu narrador, é preciso criar o mundo dessa história".

"O mais importante é o ritmo, que tem que fluir bem e se sustentar ao longo do texto. E é preciso maestria para saber dar ritmo a um texto, senão o texto fica cheio de palavras desnecessárias.
Existe ainda o problema da adjetivação. Escritores iniciantes normalmente se valem excessivamente de adjetivos. A cada frase usam tantos adjetivos que acabam sufocando o texto, não deixam um espaço de respiração entre as palavras. Isso, na maioria das vezes, deixa o texto pesado e chato, pois tudo tem uma definição, tudo vem tão pronto, tão mastigado que nem sobre lugar para o leitor imaginar nada".

"(...) a linguagem não é apenas o que ela diz, ela é também o que está na ausência das palavras, nas lacunas existentes entre as linhas de um texto e nas relações entre quem fala e quem ouve, quem escreve e quem lê."

"As palavras são as ferramentas de trabalho de um escritor. É pela linguagem que ele dá vida às personagens. A viagem da ficção começa na maneira como as palavras são articuladas e organizadas nas frases, em como o autor vai usar a sua técnica pessoal para criar um texto, em como ele fará uso da pontuação".

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um pouco de técnica com García Márquez

Ontem ao guardar o livro do José Castello, encontrei o livro "Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez - Como contar um conto".

Só o título já diz tudo.

Não tenho tido tempo para reler livros por inteiro. Têm tantos livros novos me esperando na estante, que é complicado dividir-me entre todos.

Mas de vez em quando gosto de pegar um livro, reler um trecho ou as minhas anotações/marcações. Se for um romance, leio alguns parágrafos novamente. Se for uma coletânea de contos, releio esse conto. A vista sempre volta naqueles em que eu marquei "excelente", "gostei muito", etc. Mas deveria voltar naqueles em que não coloquei nada. Talvez uma segunda leitura (ou terceira, ou quarta) mudem meu ponto-de-vista.

Bem, hoje pela manhã, meu alvo foi esse livro do García Márquez. Um livro de fazer literário. O material é a transcrição de aulas de oficina de roteiros, na qual os trabalhos dos alunos são discutidos em detalhes.

Divido com vocês alguns trechos que havia marcado de um primeiro roteiro do livro. Lembro que o grifo é meu.

"Logo de saída, cortamos a cena do banho. Morri de pena. É bonito alguém tomando banho. Poderíamos ter conservado aquela cena. Na verdade, é muito difícil encontrar uma história que não seja parecida, de uma forma ou de outra, há muitas histórias conhecidas. Acabamos eliminando a tal cena.

A realidade, aliás, estendeu outra armadilha para mim, quando eu estava escrevendo O Outono do Patriarca. Eu havia imaginado um atentado que não parecia nenhum dos atentados habituais: colocavam uma carga de dinamite no porta-malas de um automóvel. A mulher do ditador apanhava o carro para ir fazer compras, e no caminho o automóvel explodia e ela ia parar no telhado do mercado. Fiquei tranqüilo com a imagem do carro voando pelos ares porque, francamente, achei que era muito original. Pois não é que, três ou quatro meses mais tarde, fazem um atentado exatamente igual, contra o almirante Carrero Blanco, na Espanha? Fiquei furioso. Todo mundo sabia que eu estava escrevendo a história em Barcelona, e naquela mesma época; ninguém iria acreditar que eu tinha tido a mesma idéia muito antes. O jeito foi inventar um atentado completamente diferente: levam ao mercado alguns cachorros sanguinários, especialmente treinados, e quando a mulher do ditador chega, os cães se lançam em cima dela e a despedaçam. Depois, fiquei contente por terem estropiado o atentado do automóvel. Até hoje fico alegre com isso. O dos cães é mais original ainda, e está mais dentro do espírito do meu livro. Eu até acho que não devemos nos preocupar muito com isso: se uma cena não funciona ou cai, o que se há de fazer? Procurar outra. O curioso é que, na maior parte das vezes, a gente acaba encontrando outra melhor. Se tivéssemos ficado com a primeira, teríamos perdido. O problema é mais sério quando a gente encontra, logo de saída, a melhor. Aí sim, não tem jeito. Mas, como saber? É a mesma coisa que descobrir se a sopa ficou pronta. Ninguém pode saber, a não ser provando. Mas voltando às semelhanças, não devemos deixar que elas nos assustem, desde que não se relacionem com aspectos essenciais da história. Porque a verdade é que existem histórias muito diferentes e que, no entanto, têm muitas coisas em comum.

É preciso aprender a jogar fora. A gente conhece um bom escritor não tanto pelo que ele publica, mas pelo que joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. Se o escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho. Para escrever, o escritor tem de estar convencido de que é melhor do que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é. É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe. E é preciso ter critério, e coragem, é claro, para riscar o que deve ser riscado e para ouvir opiniões e refletir seriamente sobre elas. Um passo a mais, e já estaremos em condição de pôr em dúvida e submeter à prova até mesmo aquelas coisas que nos parecem boas. E tem mais: mesmo que todo mundo ache que essas coisas são realmente boas, o escritor precisa ser capaz de colocá-las em dúvida. Não é fácil. A primeira reação que tenho, quando começo a suspeitar que devo rasgar uma página, é uma reação defensiva: "Como é que vou rasgar isso, se é o que mais gosto?". Mas é preciso examinar bem e se a gente chegar à conclusão de que, realmente, não funciona dentro da história, está desajustando a estrutura, contradizendo o caráter do personagem, indo por outro caminho... bem, aí não tem jeito, é preciso rasgar mesmo. Isso dói na alma da gente... no primeiro dia. No dia seguinte, dói menos; dois dias depois, um pouco menos; três dias, menos ainda; e no quarto dia, a gente nem se lembra mais... Só é preciso tomar cuidado com a tendência a guardar em vez de rasgar, porque existe o perigo, se o material rejeitado estiver à mão, de a gente tornar a pegá-lo para ver se "cabe" em algum outro momento.




segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ouvindo José Castello

Para começar bem a semana, divido um trecho do livro "A literatura na poltrona" de José Castello que estava relendo essa manhã.

Os grifos são meus, cópia do que faço em meus livros (à lápis, claro!)

"Procurei Hélène Cixous em busca de uma inacreditável interpretação intelectual da obra de Clarice. E encontrei algo ainda mais inacreditável: uma filósofa a quem a leitura de Clarice transformou, ela também, em uma bruxa. Livros que devoram pessoas. Pessoas que encontram partes preciosas de si não em outras pessoas, mas em livros. Romances e poemas que penetram, em segredo, a mente de seus leitores — e que estragos eles fazem! Escritores que se buscam (e que se encontram!) em outros escritores. Hélène, que tentou se achar em Ingeborg, mas se achou em Clarice. Vidas atravessadas, encontros e desencontros, confluências e afastamentos, idéias que, desde então, não me abandonariam mais. Seria isso, então, a literatura? (...)

Em vez de fazer novas perguntas, eu devia me limitar a ouvir Hélène Cixous, concluí. Fazer do silêncio, um caminho. Da espera, uma resposta. E das respostas, perguntas. Era isso. Ali, naquela encruzilhada, se apresentava a chave de uma maneira de encarar a literatura e a arte, uma maneira pessoal e secreta. (...) Minhas armas, dispostas naquele bloco escolar, já não valiam de nada. Era preciso ceder, ceder e ouvir. Só isso me restava, e nem chegava a ser uma escolha.
(...)

"O que a fascina tanto em Clarice?", me arrisco, ainda, a perguntar — pois, até ali, Hélène se limitava a responder perguntas que eu não tinha feito. Ela responde: "Clarice tem vários personagens, mas é sempre ela." Depois de um silêncio rápido, me oferece uma segunda explicação: "Clarice é uma escritora filosófica. Ela pensa, e as pessoas não têm o hábito de pensar." E isso, fazer o quê ninguém faz, fascina, ela diz. Nesse momento, sem saber, Hélène respondia à pergunta que mais me atordoava. Por que as pessoas se encontram, se prendem, se perdem, se acham em livros? Por que livros pensam por elas, por que invadem sua intimidade e passam a ser parte de quem lê?

(..)Livros, telas, músicas, filmes, peças de teatro que invadem, desestabilizam e completam pessoas. Leituras que, em vez de nos distanciar do real, dele nos aproximam ainda mais, e também de nós mesmos. Livros só existem na mente do leitor. São objetos agudos, que penetram, contaminam e atordoam. Livros cortantes como facas. Ninguém lê impunemente. A relação fatal que temos com a literatura (ou não temos relação alguma, temos só um laço vaidoso e mentiroso) sempre norteou, na verdade, minha experiência de jornalismo literário. Princípio que não aprendi na escola, e que não costuma ser debatido, ou transmitido, nas redações da imprensa. Princípio, contudo, que sempre me pareceu crucial. Sem ele, o jornalismo literário se torna só um exercício de retórica, ou, no máximo, a aplicação temerosa de um conjunto de técnicas. Neste caso, ele se transforma em uma tradição, e não, como deve ser, em uma descoberta. Para que mais alguém lê um livro, senão para se transformar? Ler mecanicamente, por obrigação, ou para dizer que li, isso nunca me interessou.
(...)

Ali, desarmado (as perguntas que eu anotara em um bloco continuavam jogadas sobre o sofá, inúteis como lixo), solitário como poucas vezes me senti, aos poucos, com grande ansiedade e alguma perturbação, comecei a formular a imagem que, desde então, tenho do jornalismo. Ser capaz de ouvir, e de suportar a presença imprevista do outro, as surpresas que nos oferece, a desarmonia de suas idéias. Chegar de mãos vazias e aceitar o que me dão. Entregar-me, em vez de esperar que o outro se entregue. Desarmar-me, ainda que seja para encontrar o que não desejo encontrar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Passeando pelos livros... e talvez encontrando respostas.

E pensar que escrevi esse post pela manhã e o blogspot fez o favor de perdê-lo, na íntegra, sem deixar nenhuma linhazinha de rascunho... Vamos ver se consigo reescrever, claro que não sairá com as mesmas palavras...

Hoje estive passeando pela minha estante. Estou em estado de suspensão. Terminei há um mês a última versão do meu livro de contos, que está sendo escrito há quatro anos e que está agora tentando colocar a orelha para fora da gaveta...

Sinto falta dos meus personagens. Estou com um sentimento de vazio. Uma nostalgia, quase uma desorientação.

Para dominar a ansiedade, comecei a escrever um romance, mas ainda não engrenou. Talvez porque ainda esteja embuída da atenção a cada palavra, como faço no conto, justificando sua existência. Preciso deixar a mão correr mais livre, para só depois podar. Estou também escrevendo novos contos, e guardando numa outra gaveta. Mas não sei escrever aleatoriamente. Chega num ponto que preciso achar um fio condutor que ligue todos eles. Acho que só depois que eu encontrar esse fio, vou começar a produzir com a agilidade de antes.

Hoje, meu segundo dia de férias, deveria estar teclando alucinadamente, mas não estou. Na realidade, não teclando, escrevendo, nos meus cadernos carinhosamente escolhidos (ah, papelarias, lugares mágicos!), e com a letra que se posiciona redonda com a ponta de minha lapiseira. Só depois é que vou para o Word, para cortar, colar, retirar, incluir...

Então, por que não estou escrevendo? Talvez porque esteja frio, talvez porque tenha medo de recomeçar, talvez porque sinta a espada frequente que nos obriga a fazer o melhor possível. Tenho um outro romance bem avançado na gaveta, que fiquei me perguntando se seria bom. Talvez seja tolice minha não terminá-lo. Deveria terminá-lo para depois me questionar sobre um trabalho pronto. E não começar um novo, por mais interessante que esse novo enredo me pareça.

E pensar que não tenho problemas para escrever. Faço em qualquer lugar, apesar do pouco tempo. Sou funcionária pública e trabalho, muito. Cumpro carga horária de 8 horas, fora as três horas gastas em locomoção. Sobra para mim esse tempo do transporte, a hora do almoço (que me refugio na biblioteca da ABL), os minutos antes de arrumar as crianças para a escola, os minutos antes que o sono me domine... Mas às vezes falta concentração ou inspiração para escrever em alguns desses lugares, em outras, escrevo até em verso de nota de compra, se a vontade me vier incontrolável e meu caderninho de ideias não estiver comigo. Gasto, então, esses minutos, lendo, rabiscando só as ideias, atualizando o Canastra. E no que sobra (que é muito maior), penso em literatura, respiro, imagino. Mentalmente, transformo em palavras um céu azul, um bebê sorrindo, a vida que flui sem que venhamos a lhe dar a devida atenção.

E então por que não estou escrevendo, se agora me sobra tempo? Boa pergunta. Talvez seja o excesso de assuntos para resolver: arrumar os armários, terminar a revisão do livro publicado (técnico), etc.

Talvez seja apenas medo.

Por isso, percorri minha pequena biblioteca. Tirei alguns exemplares e resolvi reler trechos que eu havia marcado. Peguei os livros e coloquei ao meu lado. Fui relendo e transcrevendo aqui, porque adoro dividir com vocês. E, então, percebi que meus olhos paravam em trechos que me pareciam respostas para perguntas que não ousei formular. Mas que estavam ali, dentro de mim.

A primeira frase que transcrevi me tocou profundamente. Traz a lembrança de menina, quando já fantasiava minha vida. Imaginava uma vida diferente da que eu tinha, mas que desejava para mim. Pensava em cada detalhe, em cada frase de algum diálogo esperado, de cada cena, como uma peça de teatro. Andava pela casa, comia, ia dormir, pensando na próxima cena, no próximo capítulo. E com isso, passava dias vivendo cada idade naquela situação. E quando chegava a idade de partir, terminava a história, ou melhor, a interrompia. Não saberia dizer como seria ir embora. E então ficava triste. Sentia que faltava um pedaço de mim, me sentia órfã. Até pensar numa nova vida. Inventar uma nova história. Primeiro comigo, depois comecei a fantasiar histórias para os outros: amigos, familiares, desconhecidos. Se Vargas Llosa estiver correto, talvez tenha sido a semente de uma vocação literária, a mesma que espero ser ratificada um dia, talvez quando se tornar realidade a última fantasia...

Então, quando acabar esse post, darei atenção a minha filha, depois, me arrumarei para prestigiar a querida Lívia Garcia-Roza que lança, hoje, seu livro “A casa que vendia elefantes” no Salão da FNLIJ. E, à noite, ou no máximo amanhã, sentarei para escrever. Qualquer coisa. Nem que seja para amassar. Ou para depois retocar, excluir, incluir, ou seja, escrever...


Então vamos aos textos...

“Se não estou errado em minha suposição (claro que tenho mais chances de estar errado do que certo), um homem ou uma mulher desenvolve precocemente, na infância ou no começo da adolescência, uma predisposição para fantasiar pessoas, situações, casos, mundos diversos do mundo em que vive, e essa inclinação é o ponto de partida do que mais tarde poderá se chamar vocação literária.(...)

Os que o fazem e se tornam criadores de mundos por meio da palavra escrita — os escritores — são uma minoria, que, àquela predisposição ou tendência somaram essa expressão da vontade que Sartre chamava de escolha. Elegeram-se como tal. Organizaram a vida para transportar para a palavra escrita essa vocação que antes se contentava em fantasiar, no território impalpável e secreto da mente, outras vidas e outros mundos.”

“A vocação literária não é um passatempo, um esporte, um lazer refinado que se pratica nas horas vagas. É uma dedicação exclusiva e excludente, uma prioridade à frente da qual nada pode passar, uma servidão livremente escolhida que transforma suas vítimas (suas ditosas vítimas) em escravos. Como no caso do meu amigo de Paris, a literatura passa a ser uma atividade permanente, algo que ocupa a existência, que extrapola as horas que alguém dedica à escrita e impregna tudo mais que se faz, pois a vocação literária se alimenta da vida do escritor exatamente como a comprida solitária se nutre dos corpos que invade. Como dizia Flaubert: “Escrever é uma maneira de viver”.


“Cartas a um jovem escritor”
Mario Vargas Llosa

“Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
(...)
Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma.”
“Cartas a um jovem poeta”
Rilke

“Não apenas as origens do texto literário são obscuras. O próprio significado deste pode ser intrigante — inclusive, e principalmente, para o próprio autor, a quem frequentemente se pergunta o que quis dizer com determinado conto, determinado poema. Como se a obra fosse um enigma do qual o escritor, e só o escritor, possui a resposta. O leitor, este, tem de sofrer; o leitor é Édipo ouvindo da esfinge literária o desafio: “Decifra-me ou te devoro”. Mas isto é um equívoco. Em relação à sua própria obra, o escritor é como alguém que tem uma ferida no dorso; a lesão está ali, ele a sente, mas não pode vê-la. E, se não tem um espelho à mão, precisa de alguém que lhe diga o que está se passando numa parte de seu corpo que é para ele quase como a face oculta da Lua.”

“Mas é isso que acontece quando a gente se deixa levar por palavras. Porque nos arrastam, as palavras. Sobretudo as pomposas.”

“Quando eu menos esperava, e num gesto quase automático, pegava uma caneta e uma folha de papel, e escrevia. Fui assim colecionando histórias que, no entanto, guardava na gaveta: aprendera a ter paciência. Ao fim de seis anos eu tinha uma coleção de textos ficcionais que representavam o melhor que eu podia fazer: se isto não é bom, eu pensava, então não sou mesmo escritor e é melhor largar esta coisa de vez.”

“De qualquer modo, a gente escreve. E aí vem a pergunta: O que fazer com aquilo que escrevemos? Guardamos, tipo diário íntimo, ou mostramos?

Melhor mostrar. Textos guardados na gaveta são perigosos. Fermentam, produzem emanações emocionalmente tóxicas que adoecem ou fazem sofrer seu autor. Agora: mostrar para quem? Isto é importante, inclusive para não encher o saco de pessoas. Pais, professores, amigos são o primeiro escalão. Depois vêm os escritores. Mostrei meus originais a vários deles. Rubem Braga perdeu a minha primeira coleção de contos (e eu não tinha cópia). Erico Veríssimo foi mais amável.”


“O texto, ou: a vida. Uma trajetória literária”
Moacyr Scliar

“Eu não escrevo aquilo que quero, eu escrevo aquilo que sou”.

Clarice Lispector.
Citação de “O livro entre aspas”

“Convém tem disposição para limpar armários e gavetas.
Pelo menos vez-ou-outra. Ajuda a recomeçar um capítulo ou reanimar uns versos sem sangue.”

“Tem que trabalhar duro. Faça chuva ou faça sol. Trabalhar duro não significa ficar só escrevendo por horas e horas. Pensar na vida também é trabalhar. Pensar no mundo. Pensar na humanidade. Pensar nas belezas, nos desacertos, pensar até na morte da bezerra.
Pensa que é fácil?”

“Tem que reescrever um parágrafo umas quinhentas vezes. Procurar uma palavra certa durante meses. Apagar, substituir, refazer. Rasgar e embolar papéis, anos e anos a fio. Guardar alguma coisa aproveitável.
Ter obsessão pela arte o resto da vida.”

“Tem que frequentar livrarias, bibliotecas, feiras de livro, seminários, congressos e bate-papos em cafés. Brigar por um livro raro, conseguir emprestado aquele exemplar magnífico, juntar dinheiro para comprar o livro que não vê a hora de ler. Ouvir com carinho e cuidado qualquer definição de literatura.
Alguém explica a vida?”

“Tem que reler os livros de que mais gosta. Os clássicos e os novos. Reler vários trechos, em doce ou furiosa contemplação. Revisitar o desejo do protagonista. Identificar-se com esse desejo, viver desse desejo. Ajuda a entender que os melhores livros são os que permanecem dentro da gente, embora a cada dia pareçam tão novos, tão outros.”

“Tem que gostar de papelarias. Para comprar ou pelo menos namorar clipes, grampeadores, fitas adesivas, pastas de arquivo, resmas de papel, tesouras, lápis, borrachas, canetinhas de várias cores, réguas, cola-bastão, tinta para impressora, disquetes e papel para fax. Papelaria é um lugar onde sempre se encontra um escritor. Ou um estudante.
E estudante e escritor são sinônimos, entenda isso bem direitinho”

“Deixar o tempo passar. Escrever outras coisas. E ler de tudo, sempre.”


“Esses livros dentro da gente. Uma conversa com o jovem escritor”
Stela Maris Rezende

terça-feira, 9 de junho de 2009

Raimundo Carrero fala sobre diálogos


Na edição de maio do Jornal Rascunho, o escritor Raimundo Carrero estreou uma coluna que fala sobre as técnicas de ficção.

A primeira coluna trata dos tipos de diálogos, e é imperdível.

Eu já havia publicado algumas dicas dessa edição do Rascunho, mas havia deixado para divulgar essa coluna depois que o jornal estivesse disponível online. E aí, nem preciso dizer, fui fazendo uma coisa, outra, e esqueci. Mas antes tarde...

Então é só ir direto no artigo ("A obra é minha ninguém tasca eu vi primeiro") e aproveitá-lo. A edição de junho já está chegando e pode deixar que divulgarei as matérias que mais me tocarem.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um pouco de técnica com Vinícius de Moraes e Herberto Sales

A coleção Viver & Escrever de Edla van Steen (LP&M Pocket) é maravilhosa, pois nos permite, por meio dos depoimentos de grandes escritores e personalidades culturais, conhecer um pouco de suas vidas, suas obras e de suas técnicas.

Como o que é bom é para ser dividido, resolvi dividir um pouquinho dessa técnica oferecida nos depoimentos de Vinicius de Moraes e Herberto Sales.

Vinicius (1913-1980), o nosso grande poeta, dispensa apresentações. Herberto (1917-1999) nasceu em Andaraí, na Bahia. Membro da Academia Brasileira de Letras. Foi contista, romancista, jornalista, memorialista e autor de livros infanto-juvenis.

Vamos aos trechos de seus depoimentos.

Vinicius de Moraes:

"Não sou um escritor de forma fácil, que vai escrevendo emocionalmente. Por exemplo: mil poemas saem todos os dias, mas eu não anoto nada. Se for importante, o poema volta."

"Saiu [o segundo livro, Forma e Exegese] quando eu tinha 22 anos. Um livro mais organizado mentalmente, porque eu já conhecia Rimbaud, que exerceu uma enorme influência em mim. (...) Foi o Octávio Tarquínio que me pôs no devido lugar, no rodapé literário que ele assinava. Ele disse: 'Olha, menino, vá com calma, você tem tempo ainda. Você tem talento, mas a poesia é mais vasta, é preciso saber manejar o instrumento de trabalho'"

Herberto Sales:

"'Eu não acredito em espontaneidade no ato da criação, espontaneidade é o resultado do esforço que o escritor faz para aparentar que escreveu sem esforço.' O sentido que eu dou à espontaneidade é realmente este: o resultado do esforço que faz um escritor para aparentar que escreveu sem esforço. Além disso, não acredito em espontaneidade -- pelo menos em termos literários -- sem a efetivação de um traquejo estilístico profundo. O escritor que pensar de maneira diferente e resolver confiar na pura e simples espontaneidade, vai acabar sendo catador de coco. Numa palavra: espontaneidade de bardo de cordel é uma coisa, e espontaneidade em termos de literatura realizada é outra."

"O escritor que não policiar esteticamente sua linguagem, isto é, podar, cortar, afinar (no sentido musical), vai acabar se machucando. Muitas vezes eu escrevo com grande fluência, fazendo aquilo que em outros tempos se chamava 'escrever de um hausto'. A possível fluência que muitas vezes tenho hoje, porém, nada mais é que o resultado das grandes dores de parto dos primeiros tempos."

"Para mim, o bom escritor é aquele que nos seus livros nos leva a um reencontro com o que temos em nós de mais profundo e verdadeiro".

"Em Cascalho muitos nomes foram tirados diretamente da vida real. Nomes de pessoas que conheci e com as quais convivi e que entraram para o romance com os seus pitorescos apelidos. Em outras ocasiões, vou buscar nomes nas listas telefônicas, escolho-os às vezes durante a leitura dos jornais, sempre misturando-os, remanejando nomes e sobrenomes, em busca de uma correspondência física entre eles e o personagem. (...) O personagem central era um homem magro e alto, e isto me levou a dar-lhe nome de Jenner, que é, como se pode ver, sentir, um nome magro e alto, com aquele perfil esguio do J inicial e aqueles cambitos nos nn dobrados."

"Há um escritor norte-americano, Scott Fitzgerald, por quem não morro de amores, mas que escreveu pelo menos um conto genial (O Curioso Caso de Benjamin Button), que disse que desde o início de sua carreira pensou em tornar-se um bom escritor. Pela vida afora eu não tenho procurado outra coisa senão isso. Fitzgerald certamente o conseguiu."

terça-feira, 19 de maio de 2009

Rascunho: trecho do artigo de Luiz Antonio de Assis Brasil

Continuando a divulgar as boas matérias do Jornal Rascunho desse mês, reproduzo abaixo um pequeno trecho escrito por Luiz Antonio de Assis Brasil em seu artigo “Escrever, todos escrevem”.

Me fez lembrar uma frase dita pelo Luiz Ruffato no workshop que fiz com ele, na última sexta. Ele disse que precisamos escrever com o corpo. Usar nossos sentidos. Ensinamento que não vou esquecer.

Mas vamos ao trecho do Luiz Antonio (o grifo é meu):

“Embalado nessas ideias, pode-se pensar que sim, todos escrevem; é preciso, entretanto, reiterar que escrever literatura não é desabafar – que culpa tem o leitor pelos nossos problemas? --, nem é uma forma de ascender socialmente e, muito menos, de ganhar dinheiro. Escreve-se porque é uma necessidade, porque se tem o que dizer, porque não se pode viver com isso. Escreve-se com a emoção, sim, mas é a emoção filtrada pela razão. Sozinho, o sentimento não escreve nada; é necessário que esse sentimento seja, antes de tudo, literatura. E só será literatura se contiver qualidade estética. E qualidade estética não se herda pelos genes; adquire-se com o tempo, com as leituras, com as vivências, com o escrever e, em especial, com o reescrever.”

(...)

“Escrever literatura não é tarefa para fim de semana ou para as férias. Nem para enfeitar currículo.”

“Todos rabiscam uma paisagem sobre um guardanapo de papel. Até eu. Ser pintor é outra coisa.”

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Dez mandamentos de Paulo Bentancur

Estou há alguns meses fazendo uma oficina literária com o escritor Paulo Bentancur. Já tive oportunidade de dizer aqui o quanto suas orientações são preciosas.

Pois bem, sempre generoso, ele publicou em seu blog um decálogo para nos orientar a escrever o melhor que formos capazes de fazer.

Simplesmente perfeito.

E como adoro dividir boas coisas, confiram os dez mandamentos do Paulo direto do blog dele.

domingo, 19 de abril de 2009

O que tenho lido - uma boa prosa e técnica

É assim que passamos pelas 200 páginas do pequeno livro Viver & Escrever de Edla Van Steen, lendo uma boa prosa, no melhor sentido de bate-papo, além de receber belas informações sobre métodos de trabalho e técnicas literárias.

O livro faz parte de uma coleção em 3 volumes, contendo entrevistas com grandes escritores, publicadas em 1981 e relançadas agora em formato de bolso, pela LP&M. Cada entrevista traz não só a biografia de cada escritor, como seu processo de criação.

Comecei minha leitura pelo volume 2, já terminado, e sigo agora pelo volume 3. Ainda não comprei o primeiro, mas logo resolvo esse débito. O segundo volume me chamou a atenção pela entrevista com Fernando Sabino, a quem eu adoro.

Abaixo está a lista dos escritores de cada livrinho. Logo depois, como já é costume aqui, meus trechos preferidos de algumas entrevistas. Aproveitem!

Viver & escrever - volume 1
Depoimentos de Mario Quintana, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos, Nélina Piñon, Dias Gomes, Jorge Amado, Edilberto Coutinho, Ary Quintella, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Lêdo Ivo, Octávio de Faria e Menotti Del Picchia.

Viver & escrever - volume 2
Depoimentos de João Cabral de Melo Neto, Dyonélio Machado, Maria de Lourdes Teixeira, Plínio Marcos, Geraldo Ferraz, Raduan Nassar, Cyro dos Anjos, Luiz Vilela, J. J. Veiga, Osman Lins, Ivan Ângelo, Fernando Sabino e Décio Pignatari.

Viver & escrever - volume 3
Depoimentos de Vinicius de Moraes, Herberto Sales, Marcos Rey, Nelson Rodrigues, Luís Martins, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Jorge Andrade, Lygia Fagundes Telles, Adonias Filho, Autran Dourado, Moacyr Scliar e Henriqueta Lisboa.

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Trecho da entrevista com João Cabral de Melo Neto:

Numa entrevista você afirmou que não é de sentar e escrever, que vai anotando coisas e um dia... Como é isso?
Eu tenho a idéia para um poema, um tema ou então uma imagem. Anoto e jogo dentro da papelada. No momento de escrever um novo livro, vejo quais são as coisas escondidas, quais as que são trabalháveis.

Você nunca fez um poema desses que saem prontos?
Qualquer coisa espontânea que eu faço, desconfio dela. Parece ser eco de alguém. (...)

Trecho da entrevista com Maria de Lourdes Teixeira:

(...) Já que a literatura é uma transposição da vida, sempre me preocupou a harmonia entre o exato e o eufônico, como preconizava Flaubert.

Qual é o seu processo de escrever?
(...) Escrevo à máquina repetindo, emendando duas, três vezes ou mais. Gosto de polir e repolir o meu trabalho até que o texto se apresente limpo, escorreito, sem colisões e assonâncias. (...)

Trecho da entrevista com Raduan Nassar:

Escrever para você é um ato de sacrifício ou de prazer?
De alegria, às vezes intensa. Enquanto escrevia Um Copo de Cólera, por exemplo, me divertia pra valer, chegava a gargalhar em alguns momentos, poucas vezes aliás me entreguei tanto ao exercício da liberdade, se é que acredito nisso.

Trecho da entrevista com Cyro dos Anjos:

Para você, o elemento precioso do ficcionista seria uma mistura da observação da realidade exterior com...
Não vejo na ficção, propriamente, uma mistura da realidade exterior com a fantasia. A ficção parece-me apenas a interpretação da realidade, quer exterior, quer interior. Seria uma decomposição da realidade, para, com os seus próprios elementos, ser recriada, segundo a ótica do escritor.

Trecho da entrevista com J. J. Veiga:

Sombras de Reis Barbudos teve cinco versões, depois da primeira, escrita à mão, em cadernos grossos, no Passeio Público. No momento de passar à máquina a primeira, você já fazia muitas alterações?
As minhas primeiras versões são meros rascunhos, frases lançadas para ocupar o papel e me dar uma idéia aproximada da dimensão do texto. Na primeira versão eu não me esforço muito para encontrar as palavras certas. Terminada a primeira versão, eu já tenho um roteiro sobre o qual trabalhar. Deixo descansar alguns dias, que podem ser uma semana, cinco dias, um mês, dependendo da minha disposição -- ou da minha preguiça. Depois volto a ela, agora trabalhando a mão nas entrelinhas, para dar maior precisão ao texto. Às vezes reescrevo parágrafos inteiros, corto frases ou parágrafos, acrescento coisas novas que me ocorreram no período de descanso, porque esse descanso é apenas um afastamento, não um desligamento. No fim desse trabalho à mão, o texto está uma confusão que ninguém mais entenderia. Aí, passo tudo à máquina de novo, e nesse trabalho também incluo modificações que não estavam no manuscrito.
Terminada essa segunda versão, deixo descansar mais algum tempo e, novamente, quando me sinto disposto, volto a retocar tudo à mão nas entrelinhas. Torno a datilografar tudo, num processo que se repete várias vezes. Quando as páginas vão ficando relativamente limpas, isto é, quando não encontro mais mita coisa a retocar, redatilografo só aquelas páginas que tenham muitas emendas. Com isso, meus originais são entregues limpos ao editor, não dão trabalho de decifração às gráficas. Não sou um Balzac, que reescrevia até nas provas tipográficas.

Trecho da entrevista com Fernando Sabino:

Uma coisa é a criação e outra o artesanato?
Há uma espécie de maturação, entre uma coisa e outra. Escrevendo, pensando, dormindo, ou mesmo se distraindo com alguma atividade manual, a gente está sempre, subterraneamente, trabalhando, desenvolvendo idéias, o que vai sair depois no papel. É como no sonho. A gente não programa um sonho. Toda experiência de criação é, portanto, uma novidade. O escritor diante do papel em branco deve ser sempre um estreante. É sempre uma aventura, como se fosse pela primeira vez.

E por que você desistia dos romances?
Porque não correspondiam ao que eu, no fundo, sem saber, desejava exprimir. Mas os casos frustrados são necessários. Nem tudo o que se escreve é para ser aproveitado. Tenho a impressão de que se a gente aproveitar dez por cento, já está ótimo.

(...) Escrever é principalmente cortar.

Cortar o quê?
O supérfluo. E a repetição de palavras, os ecos, as rimas, os cacófatos, a pobreza vocabular. Principalmente o excessivo, o desnecessário. É preciso não duvidar da inteligência do leitor.

Uma boa frase seria então...
Aquela que esteja exatamente no foco, como uma imagem visual. As palavras, para exprimir uma idéia, devem ser absolutamente transparentes. No mais, são as velhas regras do estilo: clareza, concisão, simplicidade, propriedade vocabular. (...)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Fernando Sabino fala sobre Literatura

Há algum tempo postei aqui o link sobre as entrevistas do Roda Viva que estavam sendo disponibilizadas.

Abaixo, copiei um trecho da entrevista de Fernando Sabino que confirma a ideia de que, na literatura, tudo que é fácil de ler é muito difícil de escrever. Muito interessante. Curtam esse trechinho e depois leiam a transcrição toda, que ainda traz um pequeno vídeo.

Ruy Castro: Fernando, há uma velha frase de que tudo o que é fácil de ler é muito difícil de escrever. Todos os seus livros são muito fáceis de ler.

Fernando Sabino: Muito obrigado.

Ruy Castro: São difíceis de escrever?

Fernando Sabino: Olha aqui, o elogio que mais me tocou foi feito pela mulher do Hélio Pellegrino [(1924-1988), psicanalista, articulista e poeta mineiro], a minha querida Maria Urbana Pellegrino, que diz que foi contar uma história minha para uma amiga, uma história de quatro a cinco linhas, e ela falou: “e eu quebrei a cara porque eu acabei tendo que buscar o livro para ler para ela aquelas cinco frases”. E ela disse o seguinte: “eu descobri que escrever parece com um balé, você vê uma bailarina fazer um passo muito bonito, muito leve, vai fazer a mesma coisa e cai no chão e quebra a perna, foi o que me aconteceu”. E eu fiquei muito tocado por isso, porque realmente custa muito esforço para ser simples, é um trabalho terrível para você conseguir chegar a essa simplicidade que parece que é fácil de ler e, portanto, parece que foi fácil de escrever. E eu fiquei muito gratificado agora de você ter dito que é fácil de ler.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Paixão pela Literatura: eis a questão

Já devo ter falado aqui da minha paixão pela Literatura, e dessa mesma paixão por ler que transbordou e virou minha escrita. E também da minha preocupação em achar e resgatar esse público leitor, que tanto "não aparece" nas pesquisas encomendadas.

É muito bom receber uma crítica positiva, e claro que sem ela, nosso caminho será muito tortuoso. Mas nenhum de nós deseja que nossos livros sejam lidos apenas por nossos pares. Queremos alcançar pouco a pouco novos leitores. Transformar nossa ficção num bolo de açúcar, isca para as formiguinhas ávidas por boa Literatura.

No último sábado, saiu no caderno Ideias um belíssimo artigo, escrito por Raimundo Carrero, sobre o que vem tirando o prazer da leitura. E há um parágrafo, daqueles dignos de ler e reler pelo menos uma vez por semana, que é um espelho desse meu sentimento. Reproduzo abaixo esse parágrafo, mas o artigo "Mataram a literatura e não foram ao cinema -- Todorov mostra por que excesso de didatismo tira o prazer da leitura." pode ser acessado online, no site do JB.

"A obra de arte literária – romance, novela, conto, poema – deve considerar, sobretudo, esse leitor ávido de estranhamento, de sensação, de aventura, de prazer. Ainda que o autor conheça todas as técnicas e todas as teorias. A palavra de ordem de um narrador deve ser a sedução, com tudo o que ela tem de conquista e de encantamento. Precisa escrever com simplicidade ainda que sofisticadamente. Recorrer aos artifícios, sem dúvida, mas de tal forma que o leitor se sinta apaixonado pelo que lê, pelo que observa, pelo que sente. A técnica deve servir à conquista; importa levar o leitor ao amor com o personagem e com o enredo, e ele, com certeza, cairá numa paixão desmedida."

quarta-feira, 11 de março de 2009

Oficina Literária de Paulo Bentancur

A dica saiu no Rascunho desse mês. E vale repassá-la aqui.

O escritor de ficção e crítico literário Paulo Bentancur está oferecendo uma oficina online denominada "Mistérios da Criação Literária".

Ele é autor de 20 obras em diversos gêneros, passando pela prosa, poesia e literatura infanto-juvenil. Várias vezes premiado, incluindo-se nessa lista láureas importantes como quatro Prêmios Açorianos (1995, 1996, 2004 e 2005).

E para se ter uma ideia do quanto o Paulo nos direciona com maestria, dê um pulinho em seu site (http://artistasgauchos.com.br/paulob) e clique no link "Oficina". Ali, ele nos oferece nove páginas de ensinamentos, que por si só já nos levam à nocaute.

A oficina acontece uma vez por semana, via MSN. Para saber mais a respeito, envie um e-mail para ele: bentancur@uol.com.br.

Para se afinar ainda mais com as ideias do Paulo, dê uma passadinha também em seu blog -- http://bentancur.blogspot.com/.

Faço uma oficina com ele e afirmo: assino embaixo.

Confiram!

sábado, 7 de março de 2009

Desafios do primeiro livro

Descobri uma reportagem bem interessante na Revista Bravo sobre escritores iniciantes e seus percursos para chegar ao primeiro livro.

Para quem quiser conferir toda a matéria, basta acessar o site da Revista.

Uma grande verdade que é citada nesse texto é a importância das oficinas literárias. Essa carpintaria em conjunto traz inúmeros ganhos e maturidade para a prosa do escritor iniciante.

Veja alguns desses depoimentos retirados da matéria da Bravo:

"Eu certamente levaria 15 anos para aprender o que consegui em um ano de oficina", diz a gaúcha Cíntia Moscovich, 50 anos, ex-oficineira, já com seis livros publicados, entre eles Arquitetura do Arco-Íris (2004), com o qual levou o Prêmio Jabuti. Ela foi ex-aluna da oficina do Luiz Antonio de Assis Brasil.

"Passei a compreender como funcionam os tipos de narrativas, os gêneros literários, como cortar frases e usar os clichês.", diz Daniel Galera, autor de Cordilheira, também ex-aluno da oficina do Luiz Antonio de Assis Brasil.

Então, leia a reportagem e depois busque a sua oficina.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Leituras de hoje

No caderno Prosa e Verso de hoje há uma resenha de José Castello, a respeito de O pudim de Albertina, o livro de estreia de Natália Nami.

Reproduzo o penúltimo e último parágrafos desse texto, que traz uma luz aos nossos caminhos literários.

"Fico pensando nos momentos de desânimo em que a Natália Nami vacilou sobre seus relatos e pensou em deletar a escritora que é. Todo escritor, mesmo o mais experiente, se faz a partir dessas desilusões. Desiludir-se é o primeiro passo para a literatura. Abdicar dos encantos e das
fantasias, desistir de "vir a ser" -- grande, genial, impecável -- para simplesmente ser. Natália não escreve para compor um prestígio, ou desenhar uma imagem. Escreve para chegar ao que é."


"O escritor iniciante não deve se importar em escrever bem, ou escrever corretamente, ou em escrever para brilhar. Tudo isso queima -- e passa. Tateando às escuras, ele deve se preocupar, apenas, em escrever. Pode parecer fácil, mas é o mais difícil."

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Já a matéria de capa do caderno Ideias, do Jornal do Brasil, fala sobre os famosos caderninhos dos escritores. E adoro ler e falar sobre eles.

Não saio sem que haja uma caderneta dentro da bolsa. Na pasta, levo sempre um caderno um pouco maior. A caderneta é para as anotações de ideias. Frases que nos chegam sem avisar, enredos que nos surgem do nada. Serve também para uma palavra que pode puxar outra, e virar um grande conto. Um tema nunca antes pensado. Até um diálogo ouvido que ativa nossa criatividade.

Já o caderno é mais especial. É o caderno de rascunho para novos textos. Às vezes recebem contos inteiros. Outras, capítulos e mais capítulos de um romance. (Sim, minha gaveta também tem romance). Muitas vezes penso em parágrafos inteiros e nesse momento precisamos desse companheiro especial. Já escrevi contos inteiros no escuro. Isso mesmo, eu voltava para casa de van, um breu em virtude do insulfilm. Mas a ideia veio, forte, e não podia esperar. Nem tentem deixar para depois, elas vão embora. As letras escorrem como areia. Qual foi minha solução: imaginar uma distância razoável entre as linhas e começar a escrever, no escuro. Ao pular a linha, deixava o espaço imaginado e lá ia eu. Com o tempo, aperfeiçoei a técnica. Passava a abrir o celular (sempre preferi os que tinham flip) e a luz iluminava o caderno. Parti tempos depois para pequenas lanterninhas. Essas não funcionaram pois não dava para segurar caderno, lanterna e caneta ao mesmo tempo. A etapa seguinte foi uma lanterna de leitor, com prendedor, no qual apertava-se um botão e ela abria em forma de luminária. Deu defeito rápido. Meu exemplar atual me foi presenteado por uma colega. É uma junção perfeita de lanterninha com prendedor tipo pregador. Pequena, jeitosa e potente. Não sai da minha bolsa.

Quanto aos cadernos e canetas, o prazer fica por conta da escolha. Escolher a capa, tonalidade da linha (sim, linhas escuras atrapalham a escrita), textura da folha. Já cheguei a confeccionar bloquinhos. Da forma mais simples. Comprei um cento de papel na cor e textura que eu queria. Cortei ao meio e encadernei. Pronto, garanti quatro blocos perfeitos para deslizar minhas ideias. E no caso das canetas: pegada, maciez da escrita, cor da tinta. Doces compras!

Minhas férias estão acabando. Entre as mil coisas que programei para fazer (e não fiz) estava a arrumação de meu escritório. E como subitem, a organização dos mais de 20 cadernos que tenho, espalhados por minhas gavetas. Comecei há alguns meses uma compilação de minhas anotações em um único caderno. Talvez daqui a 10 cadernos eu consiga terminar.

Como curiosidade, cito alguns hábitos de escritores quanto aos seus cadernos de nota, retirados da matéria de hoje, de Juliana Krapp, no caderno Ideias.

A foto acima é de um caderno famoso -- o Moleskine, usado por nada menos do que: Ernest Hemingway, Van Gogh e Picasso. E o preço dizem é proporcional à fama desses escritores. Bem, eu fico com os meus queridinhos de capa dura, que me atendem, custam um décimo do valor, e posso comprar vários sem peso na consciência financeira.

"Marçal Aquino prefere os de espiral, estilo universitário. Já Joca Reiners Terron é adepto dos moleskines: não sai de casa sem o seu. Sérgio Sant'Anna costuma esquecer os bloquinhos, mas leva sempre consigo uma caneta, com a qual rabisca programas de ópera, mapas, catálogos de exposição. Raimundo Carrero dá as folhas de guarda (as páginas de branco ao final dos livros) as vezes de bloco: rascunha ali seus inícios de romance. Também original é a poeta Marília Garcia, que confecciona, ela própria, as suas cadernetas, munida de papel canson, linha de costura e tintas. Enquanto isso, Angélica Freitas anda apaixonada pelo caderno comprado num supermercado de Portugal, país de onde também vem um dos (atuais) bloquinhos preferidos de Carlito Azevedo".

"Enquanto criava Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa mantinha um caderno de notas. Sentava-se diante dele todos os dias e escrevia furiosamente, sobre os temas mais diversos: das banalidades do dia a dia a questões transcendentais. Quando sentia que já havia esgotado todas as ideias da cabeça -- ou seja, que já havia "limpado o aparelho", como ele mesmo chamava -- trocava de caderno e ia escrever mais um trecho do Grande sertão."

"Outra que não vive sem o contato com a folha em branco é Carola Saavedra, que costuma anotar todo o processo de criação de seus romances em cadernos: o desenvolvimento do enredo, as características dos personagens, os problemas que surgem no desenrolar da trama."

"Um moleskine mudou a vida do escritor, roteirista e quadrinista Lourenço Murarelli".

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Decálogo do Autor

Decálogo do Autor
Por Miguel Sanches Neto

(Fonte: Revista EntreLivros - edição nº 27)


I. Não fique mandando seus originais para todo mundo. Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato?

No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II. Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles.

Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III. Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar.

Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica.

Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido?

Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso, você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV. Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar.

O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos.

Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V. Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro.

Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante.

Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI. Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora.

Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso.

Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...

VII. Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial.

É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou.

Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar.

Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas.

Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII. Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre o seu livro.

Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos.

Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimeneto, pois você teve enfim uma apreciação.

E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX. Nunca passe recibo às críticas negativas.

Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas.

O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas.

Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou -- enfim uma vantagem de ter família grande.

X. Evite reclamar de sua editora.

Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...

Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.


domingo, 8 de fevereiro de 2009

Decálogo do Leitor

Decálogo do Leitor
Por Alberto Mussa

(Fonte: Revista EntreLivros - edição nº 27)


I. Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II. Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinquentas, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, Garcia Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Calado, Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Veríssimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III. Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV. Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V. Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI. Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

VII. Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

VIII. Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda -- tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

IX. A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

X. Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.

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Espero que tenham gostado. Amanhã eu transcrevo o Decálogo do Autor.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Começando bem

A matéria "A arte de começar bem" da Revista Língua Portugesa de dezembro (www.revistalingua.com.br), escrita por Braulio Tavares, fala sobre a importância de se fisgar o leitor logo de cara.

Concordo plenamente. Acho que precisamos envolver o leitor nas primeiras linhas. Fala-se em nocauteá-lo logo na primeira frase. Nem sempre isso é possível, mas acredito que os primeiros parágrafos são imprescindíveis para criar "o" clima.

Abaixo transcrevo o primeiro parágrafo da matéria. Começou bem, não?

Um editor de revista literária, que recebia centenas de contos por semana, tinha uma receita infalível para filtrar esse material.
"Leio a primeira página do conto, e depois a última. A primeira página tem de me dar vontade de continuar lendo sem parar. A última precisa me dar vontade de voltar atrás e saber o que aconteceu para resultar naquele desfecho."
Quando se tratava de um romance, ele fazia o mesmo com o primeiro e o último capítulo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Técnica por Graciliano Ramos

De novo uma matéria da Discutindo Literatura (edição nº 18). Aliás, essa edição estava maravilhosa. Por que só agora estou publicando? Tempo, meus queridos, ou a falta dele.

Dessa vez é a reportagem de capa sobre Graciliano Ramos, assinada por Clenir Bellezi de Oliveira.

Abaixo transcrevo trechos que falam da técnica, do quanto precisamos bater e apanhar para chegar à perfeição do que escrevemos.

Forjado em um estilo duro, rigoroso, de frases nominais, períodos curtos, com pouca adjetivação e ênfase nos substantivos e verbos, seus textos têm parentesco com o sertão duro que retratou. Em certa entrevista concedida em 1948, ele declarou:

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazer seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer".

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Oficinas literárias - pequenas e grandes dicas

Tenho feito algumas oficinas e workshops na Estação das Letras. Isso tem me dado o prazer de ouvir dicas maravilhosas vindas de grandes mestres. Sempre que a ampulheta resolve me dar uma trégua, publico aqui algumas dicas dessas oficinas.

Já tenho algumas da oficina que estou fazendo com o Marcelo Moutinho, mas a publicação vou deixar para quando terminar o curso.

Enquanto isso, aproveito para divulgar alguns artigos do Digestivo Cultural, que falam de oficinas feitas na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. Dicas valiosas.
Para complementar, me lembrei dos decálogos ao jovem escritor que li há alguns meses no Jornal Rascunho. São escritores consagrados falando àqueles que estão no início do caminho.

E para vocês curtirem, segue abaixo a lista dos links, direto à fonte de informações preciosas.

* Artigo "Oficina literária com Michel Laub" de Débora Costa e Silva. (Digestivo Cultural, 06/11/2008)

* Artigo "A preparação de um romance" de Débora Costa e Silva. (Digestivo Cultural, 22/05/2008)

* Post "Biografias literárias" de Débora Costa e Silva. (Digestivo Cultural, 25/10/2008)

* Post "Oficina de conto na AIC" de Débora Costa e Silva (Digestivo Cultural, 21/07/2008)

>> Sobre esse artigo, eu já havia publicado um resumo aqui no blog.

* Post aqui no Canastra, sobre o Workshop com o Moacyr Scliar.

* Decálogo ao Jovem Escritor (vários escritores, Jornal Rascunho)

* Decálogo do Resenhista (por Nelson de Oliveira, Jornal Rascunho)