sábado, 9 de janeiro de 2010

Como escrevo?

Isso é uma pergunta frequente aos escritores. No meu caso, que só posso dedicar à literatura os tempos livres, mas não menos importantes, respondo: onde? escrevo em qualquer lugar; quando? em qualquer horário, basta estar respirando; de que forma? me conectando, não à internet, mas a um outro mundo, de palavras, sensações.

Se há algo que aperfeiçoei com o tempo foi o poder de me desligar do mundo, onde estiver. Há momentos em que minha mente entra na sintonia de um plano paralelo, em que só eu existo, eu e meus pensamentos. Então, me acostumei a deixar que isso acontecesse em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa. Por isso, é comum eu parar algo e correr ao caderninho inseparável e ali rabiscar algumas linhas de ideias.

Essas ideias nem sempre frutificam, mas estão lá, para que eu saiba que posso recorrer a elas. E quando assim eu faço e algumas delas me pescam numa releitura, basta eu transformá-las, usando minhas canetas e papéis. Ah, sim, papel, pois apesar da formação técnica, de trabalhar com computador o dia todo, não suporto escrever nem ler diretamente no computador. Preciso do papel, deliciosamente escolhido na minha fábrica de “chocolate” que são as papelarias. Ver a letra se amoldar à folha e ir correndo ao ritmo de minha história.


Ainda chegará o dia em que poderei reservar horas do meu dia para escrever. Mas talvez eu sinta falta desse tempo corrido, em que nos desafiamos a criar, mesmo contra as não-facilidades a nossa volta.

Parece que os sentimentos transitam no Cosmos. Comecei a preparar esse post ontem e, à noite, li uma crônica lindíssima da Tatiana Salem Levy sobre escrever caminhando, no site Vida Breve. Deem uma passada por lá e leiam que vale a pena.


***

Leio vários livros ao mesmo tempo. Antologias, então, levam meses, pois vou consumindo aos poucos, graças a independência de seus textos. Uma dessas é o livro “Como escrevo?”, uma coletânea de depoimentos de vários escritores, brasileiros ou não. Foi organizada por José Domingos de Brito e publicada pela Editora Novera. Tem a apresentação de Moacyr Scliar e a introdução de Ignácio de Loyola Brandão. A obra é o volume 2 da coleção “Mistérios da criação literária”, que tem ainda: “Por que escrevo?” (volume 1) e “Relações da literatura com o jornalismo” (volume 3), “Relações da literatura com o cinema” (volume 4) e “Preferências políticas dos escritores” (volume 5).


Então, para dividir com vocês o gostinho doce que estou tendo com essa leitura, alguns trechos:


“Em geral componho mentalmente a história antes de começar a escrever, por gosto de inventar e também por prudência, para livrar-me da ansiedade de saber se poderei ou não resolvê-la de modo aceitável. A outra parte do meu modestíssimo método consiste em escrever diariamente. Italo Svevo tinha razão: ‘Não há melhor maneira de escrever com seriedade do que rabiscar um pouco todos os dias’.” (Adolfo Bioy Casares)


“Apesar de escrever há quase 70 anos, começar sempre me dá trabalho. Não é o terror da página em branco, que só existe para que não sabe o que vai escrever. Eu sei. Não sei é como! As primeiras frases são mais rudes. Cometo erros, rejeito o que escrevi, volto ao ponto de partida. Tenho alguns cadernos de 40 páginas que contêm os primeiros parágrafos de um conto. Escrevo e volto a escrever, e volto a escrever, e volto a escrever e quando chego ao final do caderno ainda não está bem. A primeira página é sempre a melhor de todas, porque foi corrigida muitas vezes.” (Adolfo Bioy Casares)


“Começo no início, continuo até o fim, então paro... A princípio planejo um pouco – uma lista de nomes, sinopse rudimentar dos capítulos etc. Mas não ouso planejar demais; tantas coisas são produzidas pelo simples ato de escrever... Não faço rascunhos. Escrevo a página número um muitas, muitas vezes, e passo para a página dois. Empilho folha após folha, cada uma em seu estado definitivo e, finalmente, tenho um romance que – em minha opinião – não precisa de revisão.” (Anthony Burgess)


“Não há uma única maneira – existe tanta tolice dita a esse respeito. Você é quem você é, não Fitzgerald ou Thomas Wolfe. Escreve-se sentado e escrevendo. Não há uma ocasião ou lugar específicos; você tem que se adequar a si mesmo, à sua natureza. O jeito como uma pessoa trabalha, supondo-se que seja disciplinada, não importa. Se ela não é disciplinada, não há mágica que possa ajudar. O truque é arrumar tempo – não apenas alguns minutos – para produzir ficção. (...) Todo mundo acaba por aprender qual é a sua melhor maneira.” (Bernard Malamud)


“Não tem regra nenhuma. Cada livro surge de modo diferente. (...) Escrevo no máximo duas horas por dia – e rápido. (...) Não gosto de mistificar o trabalho do escritor. Eu trabalho e, se toca o telefone, atendo. Não preciso me isolar, não há grilos. Posso acordar no meio da noite para escrever, não há horários rígidos.” (Bernardo Carvalho)


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Um pouco sobre os escritores citados:


Adolfo Bioy Casares nasceu na Argentina, em 1914, e faleceu em 1999. Reconhecido como um dos maiores escritores latino-americanos, sua obra é considerada uma das mais imaginativas do realismo fantástico. Seu romance mais conhecido: A invenção de Morel (1940). Seu último livro é Conversações com Borges (1999).

Anthony Burgess nasceu na Inglaterra, em 1917, e faleceu em 1993. Romancista, jornalista, ensaísta e músico nas horas vagas. Seu livro mais conhecido no Brasil é Laranja mecânica (1962).

Bernard Malamud nasceu em Nova Iorque (EUA), em 1914, e faleceu em 1986. Professor e romancista, considerado um dos principais escritores judeu-americanos surgidos após a Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro livro, The natural, foi lançado em 1952 e posteriormente filmado, com Roberto Redford no papel principal. O romance seguinte, The assistant, recebeu o prêmio Rosenthal, do National Institute of Arts and Letters. Em 1966, publicou The fixer, que lhe valeu duas importantes premiações: Pulitzer e National Book Award e, também, resultou num filme de sucesso: O homem de Kiev.

Bernardo Carvalho nasceu em 1960, no Rio de Janeiro, e radicou-se em São Paulo, onde se tornou um jornalista conhecido. Romancista e jornalista, foi editor do Folhetim e correspondente em Nova York e Londres, da Folha de São Paulo. Sua narrativa é composta de fatos reais e históricos misturados com ficção, que sustentam e dão veracidade aos enredos. Recebeu vários prêmios.





3 comentários:

BORBOLETA disse...

Que publicação mais engenhosa essa que você está lendo!

Nancy Keiko disse...

Adorei esse post! Exatamente o que eu precisava ler! E eu pensava que era a unica "maluca" que dava uma "fugida mental" no meio do expediente! ahaha!!!
Jah tens uma fã e amiga! ^^

Ana Cristina Melo disse...

Muito boa, não é, Borboleta? Adoro essas publicações que nos deixam mais perto da criação de outros escritores. É uma forma de nos identificarmos, de sentirmos esse mundo mais próximo.

Nancy, obrigada. É o máximo saber que o que divido faz eco em outras pessoas.

Voltem sempre!
Bjs
Ana