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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Frases...

Relendo o pequeno livro O livro entre aspas, que reúne frases de escritores, selecionadas por Carlo Carrenho e Rodrigo Magno Diogo (Casa da Palavra), me senti tocada novamente com algumas delas.

Então, decidi dividir com vocês:

"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca."
"Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou."
"Só se pode ler por prazer."
Jorge Luis Borges, escritor argentino 1899 ~ 1986

"A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde."
André Maurois, escritor francês 1885 ~ 1967

"Eu não escrevo aquilo que quero, eu escrevo aquilo que sou."
"Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."
Clarice Lispector, escritora brasileira 1920 ~ 1977

"Sei que é assim para 99% dos autores em todo o mundo: seus livros são escritos na mesa da cozinha, às cinco horas da manhã, antes de irem para o escritório. Sempre escrevi os meus em pequenas horas roubadas do trabalho e do meu sono."
Rosa Montero, escritora espanhola

"Muito mais importante que recomendar livros é fomentar o amor à leitura."
Burrhus Frederic Skinner, psicólogo norte-americano 1904 ~1990

"O leitor se emociona e aí ele entende, não o contrário."
Moacyr Scliar, escritor brasileiro

"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."
Italo Calvino, escritor italiano, 1923 ~ 1985

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os meus 15 livros de 2009

Embalada pelos amigos, decidi fazer a minha lista dos 10 mais lidos de 2009.

Como sou defensora de carteirinha da literatura nacional, minha lista será separada e mesclará todos os gêneros. E como li muito mais nacional (graças ao Sobrecapa) do que estrangeiro, limitarei os de lá a uma lista dos 5 mais.

Importante frisar que não temos aqui apenas os livros publicados em 2009, mas alguns que foram publicados em 2008, que só tive oportunidade de ler esse ano. No caso dos estrangeiros, pode ter sido publicado antes de 2008.

Claro que li muitos outros livros bons que não estão nessa lista, mas não dava para relacionar tudo, pois ficaria com cara de inventário. :)

Para que isso não aconteça ano que vem, tentarei publicar, a partir de agora, pequenas resenhas de tudo que estiver lendo (ou quase tudo). Assim, vocês poderão acompanhar e já curtir durante o ano. E nos próximos posts já aparecerão: "O português que nos pariu", de Angela Dutra de Menezes; "A tecelã de sonhos", também da querida Angela e "O véu", de Luis Eduardo Matta. Os dois primeiros ainda estou lendo, mas já posso afirmar que são ótimos, divertidíssimos. Angela tem um tom perfeito para o humor. O romance do Luis Matta já li um capítulo, o que foi suficiente para me enlaçar. Aliás, literatura boa é assim, basta um parágrafo para nos agarrar. :)

Então vamos a minha lista de escolhidos.
Obs: a ordenação obedece à ordem de leitura.

Literatura Nacional:
  • O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda. Literatura Juvenil.
  • Era outra vez, de Livia Garcia-Roza. Contos.
  • Afrodite in verso, de Paula Cajaty. Poesia.
  • Outra vida, de Rodrigo Lacerda. Romance.
  • Hotel Novo Mundo, de Ivana Arruda Leite. Romance.
  • Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage. Romance.
  • A liberdade é amarela e conversível, de André Giusti. Contos.
  • A História de Clarice, de Anna Claudia Ramos. Juvenil.
  • Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. Romance.
  • Céu de Origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Romance Policial.

Literatura Estrangeira

  • A Cidade e a Infância, de José Luandino Vieira. Contos
  • Os da minha rua, de Ondkaki. Contos
  • Reparação, de Ian Mcewan. Romance.
  • Homem lento, de J. M. Coetzee. Romance.
  • O Animal Agonizante, de Philip Roth. Romance.

domingo, 16 de agosto de 2009

O que tenho lido... mais sementes #2

Continuando as sementes do que li nos últimos tempos, trago hoje trechos do livro Vésperas, de Adriana Lunardi.

O livro fala de finitude e eternidade a partir de um tema recorrente: a morte de algumas das mais brilhantes escritoras da literatura mundial. São nove contos que traduzem horas extremas, num exercício que transborda os limites entre ficção e biografia, e explora a literatura como tema e inspiração.

Adriana obteve com esse livro a Bolsa para Escritores Brasileiros com Obras em Fase de Conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2000.

As escritoras que se tornam personagens: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa.

"Reconhece a dificuldade que enfrentara para encontrar cada palavra e dar ao texto o tom justo que o assunto merece. Tivera de fugir ao labirinto de vozes em que está encarcerada, fazer rascunhos e tentativas erráticas, e ser muito rápida quando conseguiu. Escrever fora o único jeito que ela havia encontrado para suportar a vida. É também a maneira de anunciar sua despedida. Virginia fecha a gaveta e prepara-se para deixar o escritório. Na porta, hesita. Um hábito ainda vivo a impede de sair. Ela dá meia-volta e vai em direção à vela, que havia esquecido acesa."
(Trecho do conto Ginny)

"Anita disse que não estávamos indo muito bem. Usa o plural quando quer me fazer acreditar que somos um time, idéia tirada dos filmes americanos que passam de madrugada na tevê. Eu sorrio e penso em dizer que somos uma equipe em meio a uma gincana de tarefas imprevisíveis, todas fatais. Mas não digo. Nos olhos de Anita, consigo medir a gravidade do meu próprio sofrimento, e antes que ela tivesse de dizê-lo, pedi para irmos ao hospital."
(Trecho do conto Ana C.)

"Sinto-me infinitamente mais à vontade sem ninguém por perto. As coisas começam a ganhar sentido. Preciso de calma para senti-las, para saber o que significam, se gosto ou não delas. É tão demorado acostumar-se com o novo, que parece não haver tempo suficiente para isso. Em vez de viver, verbo irresponsável demais para tanta exigência, a gente deveria dizer estou me dedicando, como em um trabalho difícil, desses que exigem cada uma das horas do dia."
(Trecho do conto Clarice)

"Vista do navio, a terra vermelha da sua infância se apequenava. Falsa súdita, deixava-se fixar no centro da paisagem marinha e então se encobria de uma pálpebra de bruma, resguardando seu mistério onírico do olhar estrangeiro. Deitada sobre os campos de manukas e carneiros, Kass imaginava a ilha submergindo à noite, quando todas as luzes estivessem apagadas, para retornar à superfície no dia seguinte, antes do sol procurá-la no oceano. "Alguém, um filho mais dileto, arrebanhado, haverá de cantá-la um dia." Ela sabe que está desprogramada para odes festivas, para rapsódias inteiras. "Minha tenda é a dos pequenos milagres. Abre-se com chaves minúsculas, dobraduras japonesas."
(Trecho do conto Kass)

sábado, 15 de agosto de 2009

O que tenho lido... mais sementes #1

Continuando as sementes do que li nos últimos tempos, trago hoje trechos do livro Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage.

Para saber um pouco mais sobre o livro, incluindo o texto de orelha, acesse a divulgação no Sobrecapa.

Estou empolgadíssima com o romance, com o texto da Claudia. Então para atiçar a vontade de vocês, algumas sementes da melhor qualidade...

"Mais do que tudo, começou a contar os momentos felizes e os tristes. Não havia falado nada a seu pai, mas achava que se soubesse somar alegria com alegria, nunca sentiria tristeza. E se soubesse diminuir a tristeza da tristeza, a anularia na própria origem, já que um menos um é igual a zero. E zero é um recipiente vazio que, achava, poderia preencher com o que quisesse na vida. Era o que pensava, menina. Era o que tentou pensar sempre, no esforço de acreditar que o desejo nascia para morrer de luz e depois renascer de si mesmo, na plenitude daquilo que se quer e que se tem. E não que o desejo nascia para morrer numa extinção lenta de sonho e esperança, afagos e apelos, anseios que se debatiam e ofegavam, que se somavam e diminuíam sem nunca ganhar ou perder. Apenas se multiplicavam incessantemente pelos anos, ou se dividiam parcimoniosamente pelos dias, num arrastar de sobrevivência de quem aplaca as próprias forças para não se sobrecarregar de si mesmo, não se consumir na brasa da própria luz que alimenta, não implodir na urgência da própria explosão."

"Ficaram os dois mudos. Surpreso por encontrar tranquilidade onde esperava tremor, Nabuco padecia. Eufrásia olhou surpresa o seu padecimento, descobrindo que estava ali um homem titubeante, desarmado dos artifícios incendiados com outras mulheres. Observou o castanho dos cabelos cacheados, admirada mais uma vez de serem exatamente da mesma cor dos olhos. Nabuco tinha os olhos doces, que desmentiam a postura arrogante. Ou era a arrogância que desmentia a doçura. Nossa Senhora da Conceição, acostumada que estava com mocinhas ajoelhadas diante de sua imagem a suspirar por rapazes que mal conheciam, enxergando em todos os futuro marido, se admirava do olhar sem desvios daquela moça, que olhava o moço, e não o futuro marido no moço, o moço, e não o sonho de filhos, o moço, como se intuísse que estava nele o início, o fim e o meio de todo o desejo, como se já tivesse percebido que as mulheres conheciam do amor muito pouco, apenas o que os homens permitiam conhecer. E a permissão se resumia a sonhar acordada ou dormindo com cavalheiros inacessíveis, desmaiar quando a fantasia tomava a carne em vontades impróprias e chorar quando a realidade feria demais os sonhos."

"No entanto, Ana Esméria não emendou discussão nenhuma. Pelo contrário, preferiu se fazer de surda e iniciar outra conversa. "Tenho reparado, Eufrasinha, que estás diferente." Eufrásia, que vinha justamente se esforçando muito para parecer a mesma, enrubesceu. Já estava enrubescida desde cedo, quando recebera o bilhete de Nabuco, convidando-a para o encontro na Igreja Matriz, mas a percepção da mãe a pintara mais de vermelho. Ana Esméria se deliciou com a reação da filha. Interpretou como a confirmação de suas suspeitas. "Acho que estás apaixonada." Eufrásia explodiu numa risada nervosa. "Que tolice, mamãe!", "Por que tolice? Não estás?", "Não", respondeu, em um tom que não convenceu nem a si própria. "Não estou!", repetiu, deixando claro que estava, "Por que estaria?", insistiu, confirmando que não podia deixar de estar. "E por que essa ideia agora?", tentou escapar, como pôde. "A senhora não queria que eu lesse a receita?"

"Eufrásia sentou a mãe numa cadeira. O dia lá fora brilhava, a casa por dentro ardia. Abriu as janelas, pediu que a mãe respirasse fundo, respirou, respiraram. Puxou o fio do assunto, "Por que afinal achas tanto que morro de paixão por Leopoldo?". O fio esticou até Ana Esméria sentada e ofegante. "Não acho nada, filha" Ana Esméria desolada. "Quero achar." Extinguindo-se. "Preciso." O fio voltou à Eufrásia, enrolou-se nela, "Por quê?", apertou-a na garganta, "Papai tem alguma razão em não querer que nos casemos com primos, como toda a família", apertou-a para que não falasse mais nem menos do que devia. "Se essa tradição continuar, corre-se o risco de algum dia, por engano, alguém se casar com o próprio irmão." Ana Esméria engasgou, "Deus me livre!", fez o sinal da cruz. Era o fio que esticava até seu pescoço, que ia de uma para a outra, da outra para uma. "Já esqueceste o que aconteceu com Francisca, minha mãe?", Ana Esméria teve um susto, "Não, não esqueci!". O fio esticava. "A pobre!" Esticava, esticava. "Mas o que tu tens com isso?" Eufrásia não entendeu. O fio teso. Não podia perceber que a mãe, nas vésperas de deixar esse mundo, enxergava além da vida e da morte. "Francisca foi infeliz no amor, coitada", lamentou. O fio no limite. "Mas tu não precisas ser." Todo o seu rosto se iluminou, como nas profecias, "Basta uma infelicidade na família, meu Deus!"

Aquele fio ficaria esticado para sempre. Prestes a romper e nunca se romperia. (...)".

"Eufrasinha nunca havia visto uma criança com olhar de velho. Parecia que tinha um avô dentro daquele menino. Um avô que a olhava, com o pensamento carregado de anos. Joaquim Nabuco, ou Quinquim, estava com o corpo escondido atrás da enorme figura do pai. Um garoto sério que espiava pela fresta da porta, que a olhava com uma idade que não tinha."

"Eufrásia sofria com a imagem da mãe lhe estendendo o caderninho, não esqueça a erva-doce, filha. E se via escrevendo o nome do tempero, num tempo guardado em seu peito, lá atrás. Não sabia dizer se era um tempo mais feliz ou mais triste. Era um tempo em que sua mãe existia, só isso."

Tenho tantas outras passagens que desejei compartilhar com vocês, mas não quis estragar a surpresa da própria história que elas trazem.




sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O que tenho lido...

Nossa, há quanto tempo não falo dos livros que tenho lido, do que tenho escrito, transcrito aqui frases sobre a técnica...

Hoje li um conto do livro A liberdade é amarela e conversível do André Giusti (aliás, um livro de contos muito bom. Recomendo!) que fala sobre o vazio. Um vazio imenso que nos toma meio a felicidade, que transforma a felicidade do que conquistamos em algo menor do que realmente é. E sabe que estava me batendo um vazio sobre o Canastra. Uma sensação de que ele já não era mais o mesmo. Então, pensei que é bom comentar, citar as notícias literárias, mas se tem algo que me dá prazer é ir direto ao ponto, ou seja, falar dos livros, citar o que mais me tocou, divulgar meus escritos.

E para espantar de vez esse vazio, vamos voltar a conversar sobre o que de bom tem passado pelas minhas mãos.

Sobre a coleção Viver & Escrever da Edla Van Steen eu já havia falado aqui duas vezes. E com minha falação (como diz minha pequena), havia citado também alguns trechos. Mas são tantos depoimentos interessantes, que só lendo o livro todo.

Outro livro muito bom que terminei de ler há 10 dias se chama Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil, da Anna Claudia Ramos. Mas alguns devem pensar assim: "mas não pretendo escrever literatura infantojuvenil". E eu respondo: "Não faz diferença, pois Anna fala e muito da literatura, de sua técnica, de sua importância. E literatura é literatura, não importa o gênero".

Sobre os livros, eu indico Mundos de Eufrásia de Claudia Lage. Ainda não terminei, mas até agora foram três quartos de uma história forte contada com linhas inteligentes, de técnica refinada, de palavras exatas, de jogos de palavras que são uma aula à parte. Recomendo!

Voltando um pouquinho mais no tempo (já que desde junho eu não falo sobre essas leituras), terminei aquele que foi o livro de estreia de minha querida Livia Garcia Roza -- Quarto de menina. Livia o lançou em 1995 e o relançou no Salão do Livro deste ano. Falta muito pouco para eu dizer que já passei por toda a sua prosa. E Quarto de menina prova que tudo de maravilhoso que ela criou depois nasceu com seu livro de estreia. É classificado como livro infantil, mas sendo acima de tudo literatura, recomendo a qualquer idade.

Já passei por vários romances e coletânea de contos de Lygia Fagundes Telles, mas ainda não havia lido Antes do baile verde. Aproveitei o relançamento pela Companhia das Letras para saldar meu débito. E fiquei feliz em fazê-lo. O livro é um dos melhores de Lygia. Alguns contos eu já conhecia, mas é sempre bom revê-los, revisitá-los com novas experiências, novas sensações. Afinal somos leitores diferentes a cada vez que entramos em um livro.

Li também nos últimos meses a coletânea de contos A cabeça, de Luiz Vilela. Se tem algo que fui tratando com carinho nesses últimos anos em meus textos são os diálogos. O próprio Paulo Bentancur disse sobre meu livro de contos: "(...) é sobretudo nos diálogos – essa praga na literatura brasileira, uma vez que diálogos são tratados pelo escritor nacional de forma um tanto forçadamente seca ou falsamente retórica –, repito, é nos diálogos que Ana Cristina Melo mostra que é incapaz de trair suas personagens e o universo de que elas dão notícia.". Mas não é sobre mim ou meus diálogos que quero frisar, mas sobre os diálogos não menos que perfeitos que permeiam todo o livro de contos de Luiz Vilela.

Outro título é Vésperas de Adriana Lunardi. Esse livro não é um lançamento recente, mas estava na minha fila do "a comprar" há muito tempo. E depois de comprado, passou para a fila do "a ler". E como me arrependi de não tê-lo lido antes. São contos que transcendem a biografia das escritoras e seus últimos momentos. Muito bom!

Sobre Outra vida de Rodrigo Lacerda, nem preciso falar, até porque já publiquei aqui uma resenha sobre o mesmo. Mas não custa lembrar de que é um romance maravilhoso.

Na mesma linha de lançamentos recentes, vale e muito uma passagem pelo Hotel Novo Mundo da Ivana Arruda Leite. Outra preciosidade. Ivana tem um humor inteligente e a simplicidade que de nada tem de simples na criação, mas o esforço e a minúcia de quem muito se esforça para atingir esta segurança.

Ainda com Ivana Arruda Leite, aproveitei e fui na marola de sua prosa, lendo o livro de contos Ao homem que não me quis. Um livro muito bom, que fecha com o conto que dá título ao livro. Conto este simplesmente maravilhoso.

E falando em estreias tem o romance O contorno do sol de Natália Nami. Pauta-se em dois enigmas e uma grande habilidade da autora para narrar entre os claros e as sombras da história.

E para não me acusarem de só ler os daqui, cito um estrangeiro. Não é porque goste menos, mas realmente tivemos tão bons lançamentos nos últimos meses, que foi impossível ficar longe do que de melhor é fabricado "dentro da nossa casa". Assim, li também, O animal agonizante de Philip Roth. Não é preciso que se fale de Roth. Seus livros são o bastante. Mas esse livro nos prende e nos derruba, mantendo o estilo irônico e incisivo do autor.

Bem, por hoje é só.

Assim, para atiçar mais ainda a curiosidade de vocês, nos próximos posts (incluindo esse) vou deixar aqui algumas sementinhas dessas leituras. Trechos que me tocaram, que marquei com a minha tradicional carinha de "Adorei!". :)

Começo com o livro da Anna Claudia Ramos:

* Entrevista de Anna Claudia Ramos com Ana Maria Machado

"Em um ciclo de palestras a respeito de sua obra, alguém lhe perguntou sobre o que ela considerava um bom livro infantil, Ana Maria (MACHADO, 2002) respondeu, apesar de antes ressaltar que essa era uma definição difícil, muito ampla, citando o autor inglês C. S. Lewis: 'Um bom livro infantil é aquele que a gente lê com deleite aos 10 anos e relê com igual prazer aos 50 anos'".

"Anna Claudia - Criar um mundo pra aquela história. O leitor não precisa saber de um monte de coisas que o escritor pensou ao construir uma personagem, por exemplo, mas o que o escritor precisa saber.

Ana Maria - O Hemingway dizia uma coisa perfeita. Ele dizia que o livro deve valer pelo muito que nele não entrou. Eu acho, por exemplo, que um dos segredos da grande qualidade da literatura infantil é que tivemos um grupo de autores muito leitores e que, então, eles tinham muito para não entrar no livro."

* Capítulo: Como e por que criamos?

"(...) é pela linguagem que o escritor realiza seu trabalho, que este só é possível pelo trabalho estético, o que distingue a criança que brinca do escritor criativo. Mas é preciso deixar claro que Freud faz uma distinção entre o escritor criativo (que cria seu próprio material) e o escritor que utiliza temas preexistentes (que reformula um material preexistente e conhecido, que geralmente procede dos mitos e lendas)."

"Quando digo que alguém pode escrever só para agradar a um tipo de mercado, essa pessoa tem um caminho a seguir bem diferente de quem quer ter estilo próprio e escrever sem se preocupar em passar valores ou conceitos preestabelecidos. Esse tipo de texto no qual o escritor se permite escrever sem ficar preso a passar valores explícitos se propõe a ser literatura. São textos onde as personagens podem ser paradoxais e os mundos da ficção são bem estruturados e definidos, em detrimento de textos em que existem personagens pré-fabricadas e mundos falsos, criados apenas para agradar a um tipo de demanda no mercado."

"Aonde se quer chegar com a história? Há que se preocupar com o foco narrativo, com a estrutura da narrativa, a técnica, a pontuação, o ritmo do texto, a idéia e o aproveitamento da idéia, com a construção das personagens. (...) Em se falando de construção narrativa, vale dizer que, para se criar uma história e achar seu tom, seu ritmo, seu foco, seu narrador, é preciso criar o mundo dessa história".

"O mais importante é o ritmo, que tem que fluir bem e se sustentar ao longo do texto. E é preciso maestria para saber dar ritmo a um texto, senão o texto fica cheio de palavras desnecessárias.
Existe ainda o problema da adjetivação. Escritores iniciantes normalmente se valem excessivamente de adjetivos. A cada frase usam tantos adjetivos que acabam sufocando o texto, não deixam um espaço de respiração entre as palavras. Isso, na maioria das vezes, deixa o texto pesado e chato, pois tudo tem uma definição, tudo vem tão pronto, tão mastigado que nem sobre lugar para o leitor imaginar nada".

"(...) a linguagem não é apenas o que ela diz, ela é também o que está na ausência das palavras, nas lacunas existentes entre as linhas de um texto e nas relações entre quem fala e quem ouve, quem escreve e quem lê."

"As palavras são as ferramentas de trabalho de um escritor. É pela linguagem que ele dá vida às personagens. A viagem da ficção começa na maneira como as palavras são articuladas e organizadas nas frases, em como o autor vai usar a sua técnica pessoal para criar um texto, em como ele fará uso da pontuação".

domingo, 31 de maio de 2009

Descobrindo Maria Thereza Noronha

É bom descobrir escritores cujas palavras nos tocam de um jeito especial, que tem a beleza pulsando em seus textos.

A dica me chegou essa semana e logo me encantou a poesia de Maria Thereza Noronha. Mineira de Juiz de Fora, publicou A face na água (edição da autora, 1990), Pedra de limiar (Edições de Minas, 1993), A face dissonante (Oficina do Livro, 1995), Poesia em três tempos (Editora Bom Texto, 2001) e O verso implume (Oficina do Livro, 2005). Atualmente reside no Rio.

O poema abaixo foi publicado na edição desse mês do Jornal Rascunho.

Seis

Seis palavras à procura de um poema
- pirotécnicas e pirandellianas -
passeiam pela noite descuidada.
Dadas as mãos, atravessam a praça,
olham o céu, buscando comovidas
da lua cheia a face sextavada.
Contam estrelas, meio envergonhadas:
bem sabem o banal deste recurso
e vão-se afastando, cabeças baixas.
Seis palavras flutuam, indecisas,
em demanda de estrofe onde se encaixem.
Soltas, nada mais são que sopro, brisa.
Soltas, nada mais são que folhas novas
brotando da videira, pressurosas:
furam o tronco e ainda não são uvas.

Na edição 19 da Revista O Caixote é possível encontrar outros de seus poemas.

domingo, 19 de abril de 2009

O que tenho lido - uma boa prosa e técnica

É assim que passamos pelas 200 páginas do pequeno livro Viver & Escrever de Edla Van Steen, lendo uma boa prosa, no melhor sentido de bate-papo, além de receber belas informações sobre métodos de trabalho e técnicas literárias.

O livro faz parte de uma coleção em 3 volumes, contendo entrevistas com grandes escritores, publicadas em 1981 e relançadas agora em formato de bolso, pela LP&M. Cada entrevista traz não só a biografia de cada escritor, como seu processo de criação.

Comecei minha leitura pelo volume 2, já terminado, e sigo agora pelo volume 3. Ainda não comprei o primeiro, mas logo resolvo esse débito. O segundo volume me chamou a atenção pela entrevista com Fernando Sabino, a quem eu adoro.

Abaixo está a lista dos escritores de cada livrinho. Logo depois, como já é costume aqui, meus trechos preferidos de algumas entrevistas. Aproveitem!

Viver & escrever - volume 1
Depoimentos de Mario Quintana, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos, Nélina Piñon, Dias Gomes, Jorge Amado, Edilberto Coutinho, Ary Quintella, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Lêdo Ivo, Octávio de Faria e Menotti Del Picchia.

Viver & escrever - volume 2
Depoimentos de João Cabral de Melo Neto, Dyonélio Machado, Maria de Lourdes Teixeira, Plínio Marcos, Geraldo Ferraz, Raduan Nassar, Cyro dos Anjos, Luiz Vilela, J. J. Veiga, Osman Lins, Ivan Ângelo, Fernando Sabino e Décio Pignatari.

Viver & escrever - volume 3
Depoimentos de Vinicius de Moraes, Herberto Sales, Marcos Rey, Nelson Rodrigues, Luís Martins, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Jorge Andrade, Lygia Fagundes Telles, Adonias Filho, Autran Dourado, Moacyr Scliar e Henriqueta Lisboa.

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Trecho da entrevista com João Cabral de Melo Neto:

Numa entrevista você afirmou que não é de sentar e escrever, que vai anotando coisas e um dia... Como é isso?
Eu tenho a idéia para um poema, um tema ou então uma imagem. Anoto e jogo dentro da papelada. No momento de escrever um novo livro, vejo quais são as coisas escondidas, quais as que são trabalháveis.

Você nunca fez um poema desses que saem prontos?
Qualquer coisa espontânea que eu faço, desconfio dela. Parece ser eco de alguém. (...)

Trecho da entrevista com Maria de Lourdes Teixeira:

(...) Já que a literatura é uma transposição da vida, sempre me preocupou a harmonia entre o exato e o eufônico, como preconizava Flaubert.

Qual é o seu processo de escrever?
(...) Escrevo à máquina repetindo, emendando duas, três vezes ou mais. Gosto de polir e repolir o meu trabalho até que o texto se apresente limpo, escorreito, sem colisões e assonâncias. (...)

Trecho da entrevista com Raduan Nassar:

Escrever para você é um ato de sacrifício ou de prazer?
De alegria, às vezes intensa. Enquanto escrevia Um Copo de Cólera, por exemplo, me divertia pra valer, chegava a gargalhar em alguns momentos, poucas vezes aliás me entreguei tanto ao exercício da liberdade, se é que acredito nisso.

Trecho da entrevista com Cyro dos Anjos:

Para você, o elemento precioso do ficcionista seria uma mistura da observação da realidade exterior com...
Não vejo na ficção, propriamente, uma mistura da realidade exterior com a fantasia. A ficção parece-me apenas a interpretação da realidade, quer exterior, quer interior. Seria uma decomposição da realidade, para, com os seus próprios elementos, ser recriada, segundo a ótica do escritor.

Trecho da entrevista com J. J. Veiga:

Sombras de Reis Barbudos teve cinco versões, depois da primeira, escrita à mão, em cadernos grossos, no Passeio Público. No momento de passar à máquina a primeira, você já fazia muitas alterações?
As minhas primeiras versões são meros rascunhos, frases lançadas para ocupar o papel e me dar uma idéia aproximada da dimensão do texto. Na primeira versão eu não me esforço muito para encontrar as palavras certas. Terminada a primeira versão, eu já tenho um roteiro sobre o qual trabalhar. Deixo descansar alguns dias, que podem ser uma semana, cinco dias, um mês, dependendo da minha disposição -- ou da minha preguiça. Depois volto a ela, agora trabalhando a mão nas entrelinhas, para dar maior precisão ao texto. Às vezes reescrevo parágrafos inteiros, corto frases ou parágrafos, acrescento coisas novas que me ocorreram no período de descanso, porque esse descanso é apenas um afastamento, não um desligamento. No fim desse trabalho à mão, o texto está uma confusão que ninguém mais entenderia. Aí, passo tudo à máquina de novo, e nesse trabalho também incluo modificações que não estavam no manuscrito.
Terminada essa segunda versão, deixo descansar mais algum tempo e, novamente, quando me sinto disposto, volto a retocar tudo à mão nas entrelinhas. Torno a datilografar tudo, num processo que se repete várias vezes. Quando as páginas vão ficando relativamente limpas, isto é, quando não encontro mais mita coisa a retocar, redatilografo só aquelas páginas que tenham muitas emendas. Com isso, meus originais são entregues limpos ao editor, não dão trabalho de decifração às gráficas. Não sou um Balzac, que reescrevia até nas provas tipográficas.

Trecho da entrevista com Fernando Sabino:

Uma coisa é a criação e outra o artesanato?
Há uma espécie de maturação, entre uma coisa e outra. Escrevendo, pensando, dormindo, ou mesmo se distraindo com alguma atividade manual, a gente está sempre, subterraneamente, trabalhando, desenvolvendo idéias, o que vai sair depois no papel. É como no sonho. A gente não programa um sonho. Toda experiência de criação é, portanto, uma novidade. O escritor diante do papel em branco deve ser sempre um estreante. É sempre uma aventura, como se fosse pela primeira vez.

E por que você desistia dos romances?
Porque não correspondiam ao que eu, no fundo, sem saber, desejava exprimir. Mas os casos frustrados são necessários. Nem tudo o que se escreve é para ser aproveitado. Tenho a impressão de que se a gente aproveitar dez por cento, já está ótimo.

(...) Escrever é principalmente cortar.

Cortar o quê?
O supérfluo. E a repetição de palavras, os ecos, as rimas, os cacófatos, a pobreza vocabular. Principalmente o excessivo, o desnecessário. É preciso não duvidar da inteligência do leitor.

Uma boa frase seria então...
Aquela que esteja exatamente no foco, como uma imagem visual. As palavras, para exprimir uma idéia, devem ser absolutamente transparentes. No mais, são as velhas regras do estilo: clareza, concisão, simplicidade, propriedade vocabular. (...)

sábado, 4 de abril de 2009

Resenha: Era outra vez



Saber que existe um lançamento de Livia Garcia-Roza é sempre uma grande expectativa. Pois sabemos o que vamos encontrar em sua prosa: o humor refinado, as frases inteligentes, a narrativa que nos pega pela mão e faz com que estejamos ao lado de cada personagem. Um narrador conversa com o interlocutor que não somos nós, mas leitores abusados que somos, nos colocamos no papel dele. Nos colocamos no papel do narrador. A prosa de Livia é um abraço, apertado, porém solto. É uma prosa que bate, porém acaricia. Não tem como não sair modificado de um livro de Lívia. Acho muito mais forte essa sensação em seus romances. Mas que ninguém pense que os contos têm menos qualidades. Mas é que numa coletânea de contos, apanhamos de personagens diferentes. E mal nos recuperamos de uma, vem outra surra. Surra de flores. Pois ela bate, sem ferir. Ela bate para chacoalhar nosso íntimo.

E é chacoalhando nossas emoções que Livia começa o livro de contos “Era outra vez” (Companhia das Letras). Só que vários personagens que transitam por esse livro vêm de um lugar muito especial: as histórias infantis. Mas não pensem que esse livro é infantil. Longe disso. É ficção para adulto, para quem tem coragem de ler e aguentar o que as palavras competentemente arrumadas são capazes de nos mostrar.

O primeiro conto é uma homenagem à Maria Clara Machado e seu inesquecível “Pluft, o fantasminha”. Você já sentiu vontade de abraçar um fantasma? Pois é a sensação que tive ao ler o conto “Mamãe fantasma”. Abraçar essa mãe, de “claridade leitosa” igual ao seu filho, que tenta aconselhá-lo na fase em que um adolescente descobre o amor. Mesmo que seja um “fantaslescente”. E isso tudo com a maestria e imaginação que lhe são peculiares, em frases como:

“Claro que eu sabia que estava grávida, fantasmas engravidam à toa, basta nos cruzarmos no espaço”

ou

“Eu dizia que fantasmas não se casam, porque se encontram numa rapidez de raio, e a isso chamamos amor, a esse contato etéreo e fugaz, mas você não se conformava”.

(Esse conto foi publicado no Jornal Rascunho do mês de fevereiro).

No conto “A bruxa”, Livia nos traz o medo das crianças e a reação dos pais a essas crianças, mais do que a esses medos.

Em “O lobo mau” não podemos deixar de rir com um lobo que se cansa de ser o vilão e resolve tirar satisfação com a mãe da Chapeuzinho.

“— O Lobo Mau. Tá fingindo que não me conhece? Olha aí, garota, não estou a fim de te comer nem de comer a sua avozinha caquética, está me ouvindo? Sou um lobo, porra! Agora vai chamar sua mãe que eu não converso com criança”.

Em “Os três mosqueteiros” podemos confirmar que mesmo crianças podem ser cruéis. A diferença é que são outras crianças as vítimas dessa crueldade. E é o olhar infantil de uma prima de cinco anos que Livia nos apresenta nesse conto.

“À noite, enquanto vovó assistia à novela no quarto, meus primos fumavam escondidos na varanda, arriados nas cadeiras de palhinha, soltando puns, com as pernas esticadas, soprando bolinha de fumaça para o alto. Numa dessas vezes, quando me viram, perguntaram se eu tinha namorado. Respondi que eu tinha o namorado da minha amiga. E não sei por que eles riram, e também não sei por que jogaram o cigarro aceso na grama pra queimar as formigas.”

No conto “A cigarra e a formiga” a história é apenas o caminho para mostrar o olhar equivocado dos pais que só enxergam em seus filhos o que realmente lhes interessa.

“Ela disse que ia contar uma história porque eu gostava muito de conversar. Todos riram. Mamãe tinha escolhido a história da cigarra e da formiga”.

E é assim, passando por histórias como “O gato de botas”, no qual um menino usa o gato para atender seus pedidos mais egocêntricos; ou “A tartaruga e a lebre” em que o tempo dos pais não reflete o tempo esperado por seus filhos; ou ainda em “Os sete anões” em que uma Branca de Neve “prefere” os baixinhos ao príncipe; ou uma “Sherazade” moderninha que está namorando um árabe que ela diz que detonou umas e outras, pois sofreu pra caramba, que Livia nos encanta, como só uma boa fada é capaz de fazer.

Deixei para o final o conto que mais me tocou depois de “Mamãe fantasma”. É “A pequena sereia”. Temos aqui uma criança de olhar maduro, mas que se entrega à fantasia, como algum dia aprenderá a se entregar aos seus sonhos. E como essa fantasia pode lhe servir como uma amiga inseparável.

“Quis perguntar a mamãe se ela conhecia o Comandante, e ela disse que estávamos atravessando a rua e era para eu prestar atenção, não era hora de conversa. Olhei então para a sereinha, só que ela não me viu, porque estava no fundo do balde. Devia estar dormindo, com febre, por causa do resfriado”

E esse conto que já me embalou em toda a sua extensão, me abraçou com força em sua última frase.

Nossa percepção de adultos já está muito contaminada com as urgências do mundo contemporâneo. Livia realizou de forma grandiosa esse projeto, trazendo esses personagens infantis para recuperar dentro de nós as crianças que deveríamos manter eternas. Então é para ler outra vez, e outra, e outra...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Resenha: O fazedor de velhos



Quando comprei o livro O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda, fui atrás do que havia escrito na minha listinha do "a comprar": romance de formação.

Isso é um ímã para mim. O título era instigante e falava sobre a vocação para a escrita. Ponto duplo.

Ao recebê-lo, me chamou a atenção o livro ter vindo lacrado. Como comprei pela internet, não sei se nas livrarias ele também está assim. De qualquer forma, aumentou minha expectativa com o que teria pela frente.

Mas Rodrigo não decepcionou. Como diz o título do primeiro capítulo, o livro "começa sem a gente perceber".

O primeiro capítulo nos apresenta as origens literárias de Pedro, nas quais não faltam versos apresentados e narrados pelo próprio personagem. E essa influência é clara logo na primeira frase: "Eu não me lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo".

Em seguida acontece o primeiro encontro de Pedro com um velho misterioso, ainda aos 16 anos, no aeroporto, quando Pedro já dá sinais de toda a sua criatividade. Um novo encontro ocorre em sua festa de formatura. No momento em que Pedro tem sua primeira decepção amorosa, ele também descobre que o professor palestrante é na realidade o mesmo homem misterioso do aeroporto e se chama Nabuco.

Pedro inicia a faculdade de História, mas logo depois entra em crise, por não ter certeza de sua vocação.

Em busca das respostas que precisa, seu destino cruza novamente com Nabuco, e a partir de uma sequência de testes que o professor o submete, além de uma nova paixão, ele vai descobrindo essas respostas.

Como o próprio Nabuco diz à Pedro, ele é um homem de bom coração. E esse ensinamento sobre a esperança, a bondade na natureza humana sobressaem no livro. É preciso se resgatar isso, para que possamos vislumbrar tempos melhores.

Após terminar a leitura, que fiz de um fôlego só, fiquei feliz com a sensação boa que o livro me despertou. Apenas estranhei a linguagem para um romance adulto, até ler a ficha bibliográfica (que a Cosac Naify traz no final do livro) e descobrir que era um livro Infanto-Juvenil.

Isso me bastou para eliminar o único senão (que nem chegou a ser um senão), e admirar ainda mais o trabalho de Rodrigo Lacerda, pois ele conseguiu oferecer aos jovens um material belíssimo, mas que não agrada apenas aos jovens de idade, mas a qualquer um que ainda tenha um pouco de pureza no coração, e ache isso importante para se viver com grandeza cada um dos nossos dias.

Então eu recomendo: se você tiver de 10 aos 100 anos, pegue O Fazedor de Velhos, e se deixe entregar a sentimentos bons, enquanto lê.

Trechos do livro:

"Fui trabalhando; uma, duas, três semanas. Comecei a me divertir. Os personagens eram muitos reais. Aos poucos, estabeleci relações próprias com cada um deles. Recriminava os bonzinhos quando erravam, quando eram ingênuos, quando tomavam todo mundo pela própria bondade e, claro, acabavam se ferrando. Compreendia os motivos que levavam os malvados a cometer suas maldades. Alguns eram verdadeiros abismos de emoção".

"Por alguns instantes, ruminei a idéia. No final, me convenci. O professor tinha mesmo o poder de nos fazer pensar e de nos fazer sentir coisas estranhas. E conviver com ele dava mesmo a sensação de se estar mais velho".
Mais sobre o livro:
Título: O Fazedor de Velhos
Autor: Rodrigo Lacerda
Editora: Cosac Naify
Sinope: "Rodrigo Lacerda narra neste livro a passagem de Pedro para a vida adulta. O adolescente descobre que a vida pode não ser tão doce quanto a primeira paixão, e encontra na literatura um caminho para buscar suas respostas. Mas o que torna 'O Fazedor de Velhos' uma novidade do gênero é sua capacidade de reavivar a ternura e o afeto como sentimentos que também participam do processo de amadurecimento. Neste romance de iniciação, Rodrigo traça o retrato de um artista quando jovem. O personagem Pedro tem dúvidas sobre seus caminhos, o que o leva a pensar em desistir da faculdade de História. Eis que conhece Nabuco, um professor que o auxilia na difícil tarefa de se colocar no mundo. E por meio dos livros conhecerá a si mesmo. Sobretudo quando aparece Mayumi, por quem sentirá uma nova forma de amor. "

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Afrodite invadiu meu dia



Estou leve nessa terça-feira. Sonhadora. E a causa disso tudo foi a poesia da Paula Cajaty. Estava em débito por ainda não ter iniciado a leitura de seu livro. Sou assim mesmo, minha estante transborda de livros, muitos que me vi apaixonada pela história, e ainda não consegui chegar nem perto. Mas ontem, preteri os contos, as teorias, os romances, e me joguei de cabeça em sua poesia.

E como me arrependi de não ter feito isso antes. Por já conhecer seus escritos, em prosa e verso, esperava encontrar um livro que expressasse sua delicadeza, mas ela me surpreendeu. São lindos os poemas, e não é redundante dizer que são extremamente poéticos. Transborda muita sensibilidade. Daquela que não nos deixa sair sem que estejamos diferentes. E sempre com a sensação de querermos voltar ao início, para reler e sentir novamente as mesmas emoções, ou melhor, emoções díspares. Pois cada leitura nos traz uma impressão melhor.

Espero que a querida Paula não se incomode com meu abuso, mas vou reproduzir aqui dois poemas dos que mais gostei. Foi difícil selecionar. Foram muitos que me pegaram de jeito. E no final, me agarrei a dois deles, e não tive como abdicar de nenhum. Vocês vão dizer, mas os dois falam de voo, e talvez isso reflita exatamente meu espírito sonhador, que quer alçar voo, quer se libertar dos pequenos problemas, e enxergar as pequenas bençãos sempre com olhos de primeira vez.

Espero que dê a vocês um gostinho de quero mais... E que possam se deixar entregar a essa poesia. Para saber mais sobre a Paula Cajaty ou ler outros poemas que ela escreve, deem um pulinho em seu site: http://www.paulacajaty.com/. Tem dois vídeos no YouTube, a respeito do lançamento do livro e de algumas leituras que ela fez na Primavera dos Livros, no ano passado.


PRIMEIRO VÔO

quando um pássaro quer voar
ele não testa não,
é na marra,
tem que acertar
de qualquer jeito
tem que se jogar
de lá de cima
com medo e com tudo
e pegar o jeito na asa
no tempo certo
pra não morrer

e ele só faz isso
só se joga no vazio
porque precisa voar
quando sente a certeza do vôo
dentro de si
porque ainda mais importante
do que nascer com asas
é o instinto
de que vai se jogar um dia.

PIPA NA VENTANIA

quanto mais o vento sopra
mais ela quer voar
empinar
fugir no céu
pra onde puxa a ventania
ele dava linha
ela voava na mão dele
e então cruzaram no céu
como se fosse no mundo
afiados no cerol
cortando a vida
rodopiando no chão.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O que tenho lido...


Para quem já começou a preparar a lista de presentes, para os outros ou para vocês mesmos, minhas sugestões de leitura.

Os últimos livros que li:
  • A voz do escritor - Al Alvarez - Editora Civilização Brasileira
  • Antonio - Beatriz Bracher - Editora 34
  • De cabeça baixa - Flávio Izhaki
  • A chave de casa - Tatiana Salem Levy
Mais do que indicações, ofereço minhas felicitações pelos livros da Beatriz e da Tatiana. São textos fortes, que marcam.

"Antonio" ficou em 2º lugar no Prêmio Portugal Telecom e em terceiro no Prêmio Jabuti. Além disso, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

"A chave de casa" foi finalista no Prêmio Jabuti e a grande vencedora como Melhor Livro de autor estreante no Prêmio São Paulo de Literatura.

Todos os prêmios foram merecidos. Mas o texto da Tatiana que acabei há pouco me conquistou de todas as formas. Pela linguagem, pela sensibilidade, pela competência.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O que tenho lido...

Há uns três meses talvez, um colega de trabalho me pediu a indicação de um livro. Queria presentear sua mãe. Na época, lhe indiquei Meus queridos estranhos da Livia Garcia-Roza. Um romance de intensa sensibilidade. Os textos que leio não saem incólumes, iguais a mim. Frases marcadas, assinaladas, apontadas com setinhas. E quando me envolvem, quase sempre tem um adjetivo cheio de pompa para me reforçar a lembrança daquela impressão. Nesse eu escrevi "maravilhoso!".

Há algumas semanas, uma amiga que é minha leitora fiel, me questionou o que eu estava lendo. Não só revelei o conteúdo de minha bolsa, como emprestei-lhe dois livros que eu havia acabado de ler.

Ontem terminei mais uma leitura. E hoje já comecei uma nova. E conforme avançava, feliz pelas linhas que me tocavam, tive vontade de dividir minha lista com vocês.

Atualmente estou lendo Conversas com Cortázar de Ernesto González Bermejo (Jorge Zahar Editor). A orelha nos pesca em poucas frases:

"As conversas de um jornalista de primeira linha com um escritor de primeiro quilate podem resultar em duas coisas: um sutil confronto de vaidades, ou um registro denso, esclarecedor, enriquecedor e permanente.
O repórter uruguaio Ernesto González Bermejo pertencia à melhor estirpe do jornalismo de seu país. O argentino Julio Cortázar foi, sem dúvida, não apenas um dos escritores de maior calibre da segunda metade do século XX, como um dos contistas mais notáveis de todos os tempos.
Um belo dia, em 1977, Ernesto resolveu reunir num livro algumas de suas muitas conversas formais com Julio. Desde então, tornou-se obra de consulta obrigatória não apenas para os interessados em Cortázar, mas para quem quiser mergulhar nos desvãos da carpintaria de um escritor."

E essa carpintaria que vai se desvendando em cada resposta de Cortázar, vai também nos acorrentando a esse escritor fantástico, de extrema competência e brincalhão. Em fevereiro próximo, completará 25 anos que Cortázar nos deixou, mas seus textos são tão atuais e tão fortes que parece que ele ainda nos orienta.

Uma de suas brincadeiras ao falar das leis e regras do romance:
"O romance não tem leis, a não ser a de impedir que a lei da gravidade entre em ação e o livro caia das mãos do leitor."

Um pouco de Cortázar por Cortázar:
"Cheguei à prosa com dificuldade. Aos oito anos, eu já escrevia poemas e, como sempre obedeci aos ritmos, ao som ritmado das palavras e das coisas, esses poemas, de conteúdo espantoso, inteiramente ingênuos, inocentes e desimportantes, eram perfeitamente metrificados e perfeitamente ritmados. Sem saber que um hendecassílabo era um verso de onze sílabas, escrevia sonetos em hendecassílabos, absolutamente infalíveis como ritmo e rima."

Não consigo ler um livro apenas. Sempre tenho um romance ou livro de contos, acompanhado de um livro teórico. Além dos livros que devoro do início ao fim, sempre tenho outros que leio um pouquinho a cada semana.

Atualmente:

- Os cem melhores contos brasileiros do século, organização de Ítalo Moriconi (Objetiva)

- Dublinenses, James Joyce (Civilização Brasileira)

- Obras completas III, Jorge Luis Borges (Editora Globo)

E para completar, os últimos livros que li, em ordem decrescente:

- Flores azuis, Carola Saavedra (Companhia das Letras)

- Linha de sombra, Lúcia Bettencourt (Record)

- Reparação, Ian McEwan (Companhia das Letras)

- Formas breves, Ricardo Piglia (Companhia das Letras)

- Milamor, Livia Garcia-Roza (Record)