quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Conto "Mulatas e predicados"

Hoje é meu último de férias. Olha que triste: voltar a trabalhar numa sexta-feira de Carnaval. Estou sofrendo só em imaginar o trânsito que vou pegar amanhã, para voltar para casa.

Não costumo cair no samba, nem ficar assistindo aos desfiles. Nada contra, parar meia horinha na frente da tv, ou levar as crianças para um bailinho no shopping. Mas minha predileção mesmo é tirar esses dias para descansar. Como acabei de sair de férias, esses dias serão para me acostumar que a moleza acabou, e tentar carregar um pouquinho mais a bateria.

E aproveitando esse espírito carnavalesco, publico um conto que eu havia escrito ano passado.

Espero que gostem!
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Mulatas e Predicados
Ana Cristina Melo

"Sonhar não custa nada" já dizia o samba da Mocidade, há dez anos. O de Filomena talvez custasse. Cobiçava avançar os setecentos metros da Sapucaí, ovacionada pela arquibancada. Embasbacou com o convite de Cidinha, para sair na primeira escola do grupo A que desfilaria no sábado de Carnaval. O senão estava em Filó não saber sambar, não gostar do ritmo nascido no morro, e não frequentar quadra de escola.

O interesse superou a má impressão que Filomena tinha da colega de repartição, pois a mulata de corpo esculpido sempre jogara charme para seu namorado. E conhecendo Henrique, valia não se descuidar.

Aceitar fora fácil, o duro seria o preço do que viria depois. Se fosse foto para revista, Photoshop resolveria. Mas no asfalto, só malhação; além de ser preciso perder a virgindade na depilação. Sem contar o débito das aulas de samba no pé e a reação de Henrique.

Decidida, intercalou corrida e caminhada ao lado do canal da Av. Maracanã, sofrendo com a catinga da pista alternativa. Problema minimizado em prol da meta dos seis quilos, percebidos no reflexo do seu espelho. Para enrijecer as regiões que seriam exibidas tal qual comercial de cerveja, investiu em localizadas no bumbum e adjacências.

O próximo passo era dar um jeito nos pés. A vizinha mulata, passista da Mangueira, poderia ajudar a branquela mignon, cabelos lisos e rosto redondo, que pouco escapou de ser loira. Sete aulas e Filó se achou levando o Estandarte de Ouro. Delírio sem reflexo no "Ai, minha virgem" que a vizinha murmurou, após conferir o resultado.

A um dia do desfile, era hora de encarar Sebastiana, a depiladora de seu salão de beleza. Na sua vez, seguiu a mulata de um metro e oitenta, avantajada nas proporções, que a conduzia para a última cabine. "Primeira vez?", "Sim!" "Vai querer cavada?" "Hum, é, vou!", "Deite sem a saia. Puxe as pernas e junte as solas dos pés!". Pior que isso, só dizendo "arreganha aí, menina!".

Beto, seu cabeleireiro, a prevenira que Tiana era "pouco dada a amabilidades, mas eficientíííssima". Elogio insuficiente para sobrepor o pânico.

Início insólito, e a situação só foi piorando. Ludibriada com a sensação causada pela cera quente, teve vontade de agredi-la, quando num puxão, ela lhe arrancou os pêlos e um grito, ouvido do outro lado do quarteirão. Fez menção de se levantar, mas Sebastiana impediu. "Não quero mais"! "Não pode ficar pela metade"! "Ah, o que não pode é eu sentir... AAAAII... MERDA"! Sebastiana não perdeu tempo e antes que Filó retrucasse, puxou mais duas vezes, concluindo a parte da frente. "Pronto! Agora tira a calcinha e fica de lado". Ofegante, obedeceu, achando que a outra não a deixaria sair sem terminar a tortura. "Puxa essa banda e segura"! Voltando à razão, conseguiu esboçar um "pra quê?". "Não pediu cavada? Vou depilar atrás, bem lá". Foram três segundos para assimilar onde era o lá. Suficiente. Ninguém havia visto o "lá", e não seria Sebastiana a primeira. Deu um salto da maca, vestiu sua saia, sem nada por baixo, e sumiu pelo corredor.

Faltava Henrique. Depois de abusar da luxúria como estratégia, contou-lhe do desfile. Seu salto da cama foi tão acrobático quanto o dela no salão. Indignado, berrou que não a aceitaria expondo seus predicados em rede nacional. Filó alegou que não ia expor nada, e também não ia desistir. Furioso, saiu batendo porta, jurando terminar tudo.

Filomena dormiu em prantos, pela briga, e pela virilha que ainda parecia ter sido arrancada de seu corpo. No dia seguinte, acordou querendo desistir, mas reconsiderou ao se olhar no espelho. Afinal, tinha que valer o sacrifício.

Na hora combinada, estava no metrô da Saens Pena, em direção à Praça XI. A fantasia seria levada por Cidinha para a concentração.

Tardou a encontrá-la entre tantas alegorias. Instruída a esperar, sentou-se no meio-fio, enquanto absorvia os detalhes da reta final. Retoques em carros alegóricos de sete metros de altura, verdadeiras obras de arte esculpidas em sucatas. Morenas, mulatas e negras que desfilavam suas belezas e intimidades com um mundo que fazia Filomena se sentir deslocada.

Talvez lhe emocionasse mais uma chuva de confetes, igual a que jogava no quintal, quando menina, o mais próximo que curtia do Carnaval. Nunca fora a bailes, nem vestira fantasias, a não ser a mesma saia de havaiana, a cada ano mais rala. Agora, estava tão perto de desfilar, e sobrepujava a idéia de ser tudo um sonho vil.

Anoitecia quando avistou Henrique entre as barracas de cerveja. Parecia menos bravo que na noite anterior. Não pediu desculpas, mas disse que encontrara Cidinha, que o convencera a aceitar a fantasia. Um beijo apagou o rompimento e a fez entrar novamente no clima. Quando Cidinha voltou, Henrique se afastou combinando encontrar Filó na Apoteose.

Serelepe, seguiu a colega até um recuado, onde ficou aguardando sua fantasia. Várias mulheres trocavam de roupa e enfeitavam seus corpos com todo tipo de brilho. Logo depois, Cidinha voltava com uma fantasia de sorvete da ala da gula, um dos sete pecados, enredo da escola.

Custou um pouco até Filomena entender que seu corpo malhado desfilaria escondido em um sorvete de plástico. Entrou na avenida sem saber o que a conduzia: se raiva, orgulho ou os chefes de ala que mantinham a ordem.

Oitenta minutos de desfile, e ninguém percebeu que por baixo daquela fantasia, Filomena não cantava o samba, apenas afogava um capricho. Muito menos ela poderia imaginar que enquanto cruzava a avenida, Cidinha cobrava o favor que fizera. Entre os restos do carro abre-alas que quebrara, o do Kama Sutra, ela exibia todos os seus predicados e complementos siliconados para o sujeito Henrique.

3 comentários:

dionsantos disse...

ana cristina: achei seu blog quando estava procurando por concursos literários. Muito obrigado, suas informações serviram muito ! (Tão bem feitinho, o blog só poderia ser mesmo de uma profissional). li 'mulatas e predicados' e 'telefonemas', dois contos seus, todos dois falando de 'traição sexual' ( As aspas vão de propósito, pq ninguém trai ninguém dividindo o próprio corpo - aliás, nossa única e legítima propriedade). Por outro lado, informo que fui programador cobol, depois de ter estudado engenharia elétrica (não terminei o curso). Atualmente, sou médico. E escrevo desde os sete anos ! Fiquei contente, portanto, em conhecer você, alguém que, certamente, entende que a matemática e a linguagem falada são códigos de comunicação riquissímos, com possibilidades artísticas semelhantes. Obrigado, amiga, por seu blog generoso e útil ! dionísio dos santos

Mário Marinato disse...

Mas que moça sem curiosidade! É claro que eu iria quer ver a fantasia antes!

Unknown disse...

Parabéns! Excelente conto. Daria um belíssimo roteiro para capítulo de série, novela ou filme.

William Moraes Corrêa.
Grupo Foliões.
São Luís - Maranhão.