sábado, 18 de outubro de 2008

Volteios em torno da prosa envolvente de “Milamor” (Livia Garcia-Roza)



Para quem aprecia a prosa segura, enxuta e envolvente dos romances e contos de Livia Garcia-Roza, vive um estado de suspensão ao abrir um novo livro. Inquieta. Assim me senti ao iniciar seu mais novo romance, Milamor (Editora Record). Visceral. É o que encontramos na contracapa, a respeito de sua narrativa. E, então, como se quisesse se valer da técnica máxima do conto, descrita por Cortázar, ela nos leva a nocaute nos primeiros parágrafos.

“Apesar das dietas rigorosas, do constante esforço para ir à hidroginástica, e do longo percurso diário das caminhadas, meu corpo faliu. Nada mais dá jeito nele. Foi-se, à medida que as primaveras se cumpriam. Agora só o reencontro nas fotografias. O único consolo é que aquela moça fui eu. Mas a minha alma permanece intocável. Uma orquídea de estufa, viçosa e bela. Trago-a tinindo, no mais absoluto frescor...
― Falando sozinha, mamãe?
― Há muitos anos.”

Simplesmente perfeito. É assim que Livia nos entrega a história de Maria, uma mulher em idade madura, cinqüenta e nove anos, que mora com a filha desde a morte de Haroldo, seu segundo marido. Conversando sozinha, ou trocando idéias com suas samambaias. Maria, filha única, de pais estrangeiros, teve uma infância solitária e isolada, trancada em casa. Sobre o resto da família, seu pai lhe dizia que estavam todos “no Alemanha”. Sua única referência de companhia fica associada à Dolores, a filha de sua vizinha, a quem Maria conhece como Milamor.

Após os sobressaltos do passado, Maria chega aos sessenta anos um tanto desanimada com os dias “iguais, tranqüilos e idênticos”. Uma vida que jazia numa poltrona. Até se descobrir aberta a novas experiências, após conhecer um homem que lhe altera o prumo e lhe desperta novamente a sexualidade.

“Que estampa de homem! Não saberia dizer ao certo o que se passou. Me envergonha estar contando essas coisas. Mas aconteceu. Uma luz. Um facho. Uma fulguração. Que não mais cessou de expandir seus raios cintilantes. Passei a ter sonhos turbulentos com o homem que eu havia visto apenas uma vez”.

Nos três primeiros capítulos, nos tornamos íntimos de Maria e sua família. Mas não se iludam em pensar que Livia nos oferece uma narrativa linear. É ao final do terceiro capítulo que passamos a voltar em tempos diferentes de seu passado, enquanto nos envolvemos com as estrepolias causadas por sua nova paixão, seu relacionamento com os filhos e com os telefonemas incitantes das amigas.

A delicadeza em que Livia nos oferece todos esses momentos, sem que percamos o ritmo, engrandece a história. Se isso não fosse o bastante, o relato harmônico, inteligente e recheado de um humor agradável, enfatizando a realidade de pequenos episódios corriqueiros, nos prende e nos leva à profundidade de cada personagem. Um carinho na alma. Não se podia esperar nada diferente da ficção de Livia Garcia-Roza.

Trechos para instigar a apetência:
“Na verdade, aqui no alto, moramos eu e as samambaias, com quem troco idéias diárias. E recebemos duas visitas, a de Maria Inês e a da diarista. Sim, porque minha filha trabalha o dia inteiro e quando termina o expediente emenda na noite com os colegas”.

“Constantemente me aplica testes para ver se ainda raciocino, atenta a qualquer deslize neurológico. Tenho-a decepcionado, felizmente”.

“Um dia, o grito de uma menina apareceu lá no alto do morro, atrás da nossa casa ― eu vi quando ele chegou lá em cima, estava com pressa e tinha o peito estufado, desceu a ribanceira correndo, e chegou na área. Mamãe ― (...)― tapou os ouvidos”.

Um comentário:

Jackson P. Franco disse...

É muito bom ler isto tudo.Achei o seu blog querendo "postar"uma resenha sobre Tchekhov, que coloquei no meu blog de escritor iniciante.Pode dar alguma dica?
Saudações literárias.