quarta-feira, 9 de julho de 2008

Indicação de leitura: Oficina de escritores

Ainda vale ler cada novo manual para a arte da ficção? Acho que sim. Por mais que já tenhamos enraizado as regras do que se deve fazer, ou do que não se deve fazer num texto, é sempre bom ler que estamos no caminho certo, ou descobrir que ainda pecamos em algum lugar.

O livro Oficina de escritores: um manual para a arte de ficção de Stephen Koch é mais do que um manual, é um guia de incentivo, para quem sabe como dar vida a uma página em branco, ou para quem ainda precisa do parágrafo abaixo para começar:


“Não tenho dúvida de que chegará o dia em que você será mais inteligente, ou mais bem informado ou mais habilidoso do que é agora, mas nunca estará mais pronto para começar a escrever do que neste exato instante”.



Stephen lecionou por 21 anos em uma notável pós-graduação em escrita literária na School of Arts da Columbia University, além de sete anos a alunos de graduação da Princeton University, no programa de Redação Criativa.

Com a autoridade de quem trabalhou durante muito tempo com milhares de originais, Stephen não só oferece sua experiência, como concentra nas quase trezentas páginas do livro, instruções de consagrados escritores.

Abaixo, alguns trechos do livro que valem ser lidos e relidos, em qualquer momento dessa nossa difícil estrada da escrita.


Nos prefácios para a edição nova-iorquina de seus romances, Henry James relata de que maneira teve início cada um de seus clássicos: uma impressão súbita, algo “minúsculo, sobrado pelo vento... uma indicação solta, uma palavra ao acaso, um vago eco, ao toque dos quais a imaginação do romancista se sobressalta como se aguilhoada por um objeto pontudo... (Capítulo I. O começo)




Toda história é o que suas personagens fazem. Portanto, mostrar como as personagens são, qual é a sua aparência ou o que elas sentem tem importância secundária. É preciso mostrar como elas agem. (Capítulo I. O começo)




As personagens não agem sem uma motivação. (...) A motivação é o ponto de entrada de toda história. (Capítulo I. O começo)




Hemingway dizia que a única coisa que realmente importa no tocante à primeira versão é concluí-la. (Capítulo I. O começo. Regras para a primeira versão)




Um certo grau de talento ao começar é indispensável. (...) O que é talento literário? Uma fluência ágil. Um jeito com as palavras. Uma imaginação que se acende facilmente, sempre pronta a ver, ouvir ou sentir. Um ouvido para a música da linguagem, uma tendência para se deixar absorver nos misteriosos movimentos de seu significado e de sua sonoridade. Uma sensibilidade em relação ao público leitor. Habilidade para organizar conceitos verbais com coerência, eficácia e razoável rapidez. Aptidão para captar formas e figuras sutis da imaginação vívida e destreza para fixá-las na página. (Capítulo II. A vida de escritor)




As quatro disciplinas primordiais de qualquer escritor são: imaginação, observação, leitura e escrita. (Capítulo II. A vida de escritor)




Richard Bausch: Evite intelectualizar. Imaginar não é explicar as coisas, mas vê-las. (Capítulo II. A vida de escritor)




Quem não tem tempo para ler não tem tempo (nem ferramentas) para escrever. É simples assim. A leitura é o centro criativo da vida do escritor. (Capítulo II. A vida de escritor)




Para começar, só a leitura nos treina a usar corretamente as palavras. (...) Tenha sempre ao seu alcance na escrivaninha uma boa gramática, ao lado de um dicionário de primeira linha. Mas também se lê para ouvir a música da linguagem, tanto a culta quanto a popular. (...) Faça ainda uma dieta regular de poesia. (Capítulo II. A vida de escritor)




“Se você quer ser escritor”, diz Walter Mosley, “precisa escrever diariamente. A coerência, a uniformidade, a certeza, todos os caprichos e paixões se resolvem por meio dessa prática diária. (...) Mas há exceções. Se você tem emprego ou filhos, haverá muitos dias em que não conseguirá nem meia hora. “Não consigo escrever regularmente”, explica Toni Morrison. “Nunca consegui fazer isso ¬– principalmente porque sempre trabalhei fora o dia todo. Precisava escrever nos intervalos entre as horas de trabalho, às pressas, ou nos fins de semana e antes do amanhecer. (Capítulo II. A vida de escritor)




Encontre seu ritmo, qualquer que seja, aprenda a trabalhar em qualquer lugar e contorne todos os obstáculos. “Você poderá escrever sempre que estiver sozinho e não houver ninguém para interrompê-lo”, observou Hemingway. (...) Richard Bausch aconselha: “Treine-se para trabalhar em lugares movimentados, sob a massa de ruídos produzidos pelo mundo – trabalhe com crianças brincando ao redor, com música tocando, ou mesmo com a televisão ligada” (Capítulo II. A vida de escritor)




Vamos falar a verdade: mesmo que você seja muito bem-sucedido, será difícil ter uma renda decente apenas escrevendo. Então, faça as pazes com a necessidade de ganhar a vida de outra maneira – e tire o melhor proveito disso. (Capítulo II. A vida de escritor)



A vontade é continuar relatando todo o livro. Da próxima vez, citarei trechos dos outros capítulos.

3 comentários:

Davi disse...

O interessante neste mundo da internet é este repente de achar o que não se procura mas que acrescenta. Gostei

poesias e girassóis disse...

Estes aperitivos que foram destacados nesta valiosa indicação de leitura, abrem um apetite pra obter esta jóia literária.

Excelente Ana!

Davi Cartes Alves

Marina Vidigal disse...

Cara Ana Cristina,
Comprei o "Oficina" recentemente, estou lendo e adorando! Você conhece outras boas obras nessa linha?
Abraços,
Marina Vidigal